Texto escrito em parceria com Maíra Lacerda
Das páginas de um volume muito ilustrado de As mil e uma noites, o pai trazia a história de Simbad, o marujo e lia para a menina, encantada com as façanhas do herói que, nas sucessivas aventuras, partia do porto de Basra, onde ela nascera e morava, no Iraque. Adulta, Alia Muhammad Baker, agora bibliotecária em sua cidade, mobilizou-se para salvar os livros sob sua guarda, diante da guerra anunciada e da inércia do Estado perante a ameaça à cultura do país. Agindo por conta própria e com a ajuda de amigos, retirou os livros para colocá-los a salvo da destruição. Nem todos os livros foram salvos. Bombardeios, incêndios e saques chegaram antes do término da tarefa, naquela guerra de 2003. Guardiã do acervo, Alia cuidou dos cerca de trinta mil exemplares até que o fim do conflito possibilitasse a construção de um novo prédio para abrigá-los.
Dois livros, pelo menos, narram o episódio, exemplo de ações anônimas a traduzir a consciência humana diante do valor material e simbólico do livro como experiência de fruição individual e coletiva: The Librarian of Basra: A true story from Iraq, escrito e ilustrado por Jeanette Winter, e Bibliotecas do mundo, de Daniela Chindler, ilustrado por diversos artistas.
Três livros comprados em Bolonha, em abril último, contemplam esse espírito que anima bibliotecas em muitas partes do mundo, em todos os tempos. A obra vencedora do prêmio de ficção outorgado pela feira, La casa della saggezza (A casa da sabedoria), de Bodour Al Qasimi, conta, em diálogo com estupendas xilogravuras de Majid Zakeri Younesi, que recriam a idade de ouro islâmica, a história da perda, para a humanidade, de um grande “tesouro de sabedoria e conhecimento”.
A biblioteca criada em Bagdá pelo califa Harum al-Rashid, que reinou entre 786 e 809, tornou-se um núcleo de produção e difusão do conhecimento, na época em que Bagdá era considerada um dos centros do mundo. Um farol de erudição e cultura em que trabalhavam homens e mulheres, unidos por uma mentalidade de pesquisa e troca. Como uma Babel em que a comunicação era alcançada — a tradução era um dos campos de estudo mais desenvolvidos —, ouviam-se ali diversas línguas. La casa de la saggezza — a Casa da Sabedoria — atravessou cerca de cinco séculos até a invasão mongol de 1258, que tomaram a cidade e incendiaram a biblioteca, não sem antes lançar os livros ao rio Tigre, em tal quantidade que constituíram um apoio sólido para os guerreiros e seus cavalos atravessarem, sem dificuldade, as águas completamente negras por ação da tinta das páginas ali dissolvida.
A ilustração desse feito, de rara contundência, acompanha seu caráter fantástico. O cavalo encilhado, porém livre de cavaleiro, volta a cabeça para o alto e para trás, numa interpelação aos céus sobre o ato bárbaro que põe fim a uma era memorável e causa a perda do tesouro mais precioso e irrecuperável: os livros e o saber que continham.
Biblioteca dei libri (im)possibili (Biblioteca dos livros (im)possíveis), de Giuseppe Sofo, com ilustrações de Giovanni Colaneri, é outro dos livros vindos na bagagem. Muito colorida, essa biblioteca manifesta alegria e prazer, convidando a leitora e o leitor a visitar, seção por seção, livros que “poderiam ter sido escritos” ou que “poderão ainda vir a sê-lo”. Na biblioteca de Arte, o Manual de arte invisível proclama a possibilidade de criar obras que não deixam marcas e de perceber a beleza mesmo sem poder vê-las; na biblioteca de Formação Profissional, há o Curso de formação para catar estrelas, e na de Literatura há Poesia para o vento, de um caráter muito especial que faz do vento o artista. Mais do que a crença na utopia de um saber total, mostra-se a confiança no valor das bibliotecas, feitas concretas em sua (im)possibilidade, e inspiradas em bibliotecas reais. A biblioteca de Literatura é inspirada na biblioteca do Centro Cultural Internacional de Cerisy, em Cerisy-la-Salle, França; a Garden Library for Refugees and Migrant Workers, em Tel Aviv, tem seu projeto presente na biblioteca de Ecologia & Zoologia, no sonho da biblioteca universal, una e atemporal.
De Portugal, vem a receita de Como criar uma biblioteca, de autoria de Inês Fonseca Santos, com ilustrações de André Letria. Em paleta bastante delicada e de poucas cores, o texto descreve a forma singela e efetiva de juntar um livro, outro, outro e chegar às coleções valiosas. A tônica do encontro entre o livro e o leitor é o eixo em torno do qual a biblioteca se constrói.
Um dia, o livro vai encontrar-te.
Se o abrires, não haverá retorno. […]
Começaste uma biblioteca.
A tua. […]
Partilha-se, mesmo quando já partiste.
Um pôster acompanha o livro. Desdobra-se em três páginas com fotos e informações da Biblioteca de São Lázaro, a mais antiga biblioteca pública de Portugal, instalada “num edifício de arquitetura neoclássica do século 19, mandado erigir por Elias Garcia em 1875. Começou por ser uma biblioteca escolar e, em 1883, foi inaugurada como ‘biblioteca popular municipal’”.
Na visão de Jella Lepman, livros são pontes entre culturas e uma via possível para a paz. As guerras continuam; bibliotecas são destruídas e renascem como nunca. Nunca terá havido tantas, embora sempre poucas para a necessidade do mundo. Que interesse é este pela biblioteca em tempo de experiências líquidas, de telas a pedir frações de segundo e nenhuma memória de atenção? Tempo em que já (não) se prediz um futuro sem livros? Tempo em que, no Brasil, um livro para crianças, publicado sem interrupção por cinquenta anos, ainda causa considerável frisson ao ser adotado para leitores de dez anos, em um colégio conservador? A circunstância se repete pelo mundo.
Se livros são ainda proibidos é porque são eficazes, um vocábulo que não costuma pertencer à esfera da experiência de leitura. Utilizemos, então, incomodam. Incomodam porque transformam (ora, ora, diria Antonio Candido), e tem sido essa a alegação por trás de demandas judiciais que visam proibir a livre circulação de livros. Ou seja, livre circulação de ideias, de afetos, de informações. Enfrentam as telas, as big techs e os poderes autoritários, os livros.
Biblioteca não é lugar de silêncio. No início do filme Asas do desejo, de Wim Wenders, dois anjos pousados na cúpula da biblioteca de Berlim ouvem o murmúrio interior dos leitores abaixo, debruçados sobre livros. Essa riqueza, essa balbúrdia, sempre avessa a um único sentido, é a própria sinfonia humana, composição ofertada a cada vez que se abre um livro.
Ato generoso, a biblioteca. Uma insurgência, por natureza.