Texto escrito em parceria com Maíra Lacerda
As experiências singulares costumam ser antecedidas por histórias, algumas quase lendárias. Sobre a Feira de Livros para Crianças em Bolonha, por exemplo, temos uma história ouvida, outra vivida. Em ambas, o testemunho de uma das colunistas.
Regina Yolanda Werneck, exemplo de formação em arte e educação para mais de uma geração, responsável direta pela divulgação da arte brasileira da ilustração nos livros para as infâncias e pelo diálogo com outros países, estava no aeroporto para embarcar. Levava duas malas: uma com roupas e artigos pessoais, outra com livros brasileiros, para serem exibidos em Bolonha, cuja Feira de Livros para Crianças, embora ainda recente à época, já constituía um marco de caráter internacional. Não havia dinheiro para pagar por ambas as bagagens. Com muita clareza, Regina pegou o mantô, jogou-o no braço, disse à família para levar a mala de roupas de volta para casa e levou com ela os livros para exposição no ainda acanhado estande da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.
Por que era tão importante que nossos livros para as infâncias estivessem lá? Uma evidência e um compromisso, o mesmo observado em 1998, quando essa mesma colunista esteve pela primeira vez em Bolonha. Eram três mesas pequenas na exibição mínima e orgulhosa dos livros que aqueles países (Irã, entre eles) produziam para suas crianças. Livros muito simples, alguns pouco diferiam de uma publicação de cordel. As pessoas responsáveis mostravam a convicção do projeto que as levava até ali.
Levar livros de qualidade a todas as crianças de uma nação é um projeto justo, base do exercício democrático e efetiva ação de mudança da sociedade. Assim acreditou Jella Lepman, jornalista alemã exilada na Inglaterra durante a Segunda Guerra. Ao retornar para “a reconstrução da Alemanha […] estava convencida de que colocar livros nas mãos das crianças lhes ofereceria esperança para o futuro”. Sua convicção e ação apresentaram desdobramentos vitais para a infância e para o mundo, incluindo a Biblioteca da Juventude, em Munique e, acreditamos, esta Feira de Bolonha. Dedicada de forma exclusiva aos livros para crianças e jovens, reúne editoras, agentes literários, bibliotecárias, autoras, autores e ilustradores de todo o mundo. Como grande mostra da produção de diversos países, seu principal objetivo está na venda de direitos autorais, promovendo a troca essencial ao conceito de Lepman de “livros como pontes para a paz”. No decorrer de sua realização, são anunciados os resultados de importantes prêmios. Em síntese, tem-se uma mostra das políticas e das práticas editoriais das diferentes nações, pondo em relevo os cuidados com as representações das infâncias e das juventudes na literatura, mas também a confiança de que livros para esse público podem, no presente, fornecer alicerces para futuros exercícios de uma existência saudável e pacífica.
Nesta 63ª edição, pode-se falar de um tempo efervescente e silencioso. Em termos da efervescência e mesmo exuberância, os estandes — verdadeiras embaixadas culturais, como o do Azerbaijão —, as palestras, as exposições e os encontros no âmbito da organização da própria feira foram os responsáveis pela percepção da viva pulsação desse mercado. O encontro com Christian Bruel foi encorajador, um vento de liberdade e clarividência. Autor de A história de Júlia e de sua sombra de menino, publicado originalmente em 1976 e considerado, nas palavras dos críticos presentes, “o primeiro livro feminista”, Bruel se posiciona criticamente em relação à ideia de uma infância — e de gêneros — conformada às expectativas familiares e sociais. Na clareza de que a revisão de papéis abrange os vários lados implicados, diz Bruel: “É preciso também construir livros sobre o masculino, essa é minha esperança para o futuro”.
Um futuro que, há 40 anos, vislumbrou — e realizou — o que é hoje a revista Peonza, publicada em Cantábria, Espanha. Com o número 155 dedicado à Itália e apresentado nesta feira por Javier Sobrino, o empreendimento oferece matérias assinadas, resenhas e depoimentos da produção contemporânea, com amplo painel de ilustrações.
Impossíveis — Ideia de um movimento de artistas no mundo —, iniciativa do brasileiro Roger Mello, tem por objetivo discutir questões globais da literatura para as infâncias e fazer convergir esforços para caminhos de paz. A sensível mostra de ilustrações de Ali Boozari, do Irã, com tônica nas representações de paz, sintetizou o movimento de resistência e apoio mútuo.
A presença do Brasil na feira esteve marcada pelo estande da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Instituto TAL (Todas as Linguagens), uma criação recente com foco no direito das infâncias à literatura. Criado “por pessoas que já caminham há décadas no mundo da literatura para crianças e jovens”, tem como objetivo essencial alcançar a realização da perspectiva de Antonio Candido, para quem a literatura é um direito humano. Em Bolonha, houve a oportunidade da apresentação pública e de um bom encontro com brasileiras e brasileiros que realizam consistente trabalho de divulgação de nossa literatura para as infâncias, em que marca boa presença o projeto Português como Língua de Herança, que consiste em manter viva entre as crianças a língua original de antes da emigração, ou de um dos genitores, quando apresentam línguas maternas diferentes.
Este é um painel mínimo, ditado pela experiência pessoal possibilitada pelas necessidades de uma agenda, e pode ser complementado por outras vozes. O Instagram é uma boa fonte para isso. Ler a síntese feita por Ana Garralón (@anatarambana_lij) enriquece o panorama. À parte as tarefas profissionais que impulsionam a ida ao evento, diz a artista e pesquisadora espanhola, “duas ou três horas (de circulação) levarão a um cansaço visual de tanto livro”, e alista importantes exposições a que assistiu, dentro ou fora do espaço da feira.
“Se não fosse Bolonha, não haveria Frankfurt”, o escritor Volnei Canônica lembrou a frase de Marina Colasanti. Sem que as crianças sejam leitoras, não haverá adultos que comprem livros para si. A efervescência serve ao futuro. Mas as perguntas inquietam no presente: se o mote de toda a azáfama aqui referida está em “trabalhamos para as crianças”, quem são as crianças de que falamos, para quem trabalhamos? Essas crianças compreendem também as que estão morrendo no momento em que nos debruçamos sobre livros belíssimos feitos para elas? Se não podemos impedir de forma direta guerras e outras formas de domínio e exploração sobre as infâncias e as juventudes, que se resolvem no trabalho político, inclusive por meio de livros, sabemos que cada ato em via contrária conta. Na feira concebida e realizada em nome das crianças, contaria a mínima menção, a mínima marca de luto em relação às crianças de Gaza, da Ucrânia, do Líbano, do Irã — para só mencionar as guerras cobertas pela mídia.
Nada vi, nada ouvi, e estive lá por três dias inteiros. Não estive em todos os lugares, não em todos os eventos, é certo. Não pude assistir à apresentação de Lexicon of Genocide — a Bilingual Book by Palestinian Children. Mas estive na Feira, atravessei pavilhões em várias direções. Participei de momentos importantes. O silêncio me acompanhava. Incômodo, exigente. Névoa espessa em meio aos corredores coloridos, na qual procurava, de forma inútil, o “homem do martelo”, de que nos fala Tchekhov.