A ótima HQ Na sala dos espelhos, da sueca Liv Strömquist, nos instala diante de uma vitrine infinita — mas, aqui, quem observa e quem é observado se confundem, como se o vidro devolvesse não apenas um rosto e um corpo, e sim uma paisagem inteira de afetos e expectativas disciplinadas ao longo de séculos. A HQ, que se anuncia desde o subtítulo como uma investigação sobre “autoimagem em transe” e sobre a transformação de “beleza e autenticidade” em mercadorias na era dos likes, se constrói como um longo desconforto, desses que não se resolvem em uma moral de fábula, mas continuam nos incomodando depois da última página.
Ler Strömquist é se deparar com um trabalho que tem densidade acadêmica, mas também um humor sofisticado e provocativo, onde as cenas se sucedem com o ritmo de um monólogo espirituoso, que mescla teoria e cultura pop, e onde o diagnóstico nunca recai apenas sobre “os outros”: o espelho, afinal, também é nosso e da nossa cultura.
Talvez o primeiro gesto da autora seja justamente deslocar o espaço íntimo para esse painel coletivo e retroiluminado que atende pelo nome de rede social, em especial de Instagram. Não se trata mais de perguntar, como a madrasta de Branca de Neve, “espelho, espelho meu”, em segredo, mas de transformar a própria pergunta em conteúdo, em stories, em postagens no feed: a resposta, agora, vem em forma de corações, números, comentários, algoritmos que calibram a visibilidade de rostos e de corpos.
A solidão diante do espelho é, assim, substituída por uma espécie de solidão acompanhada, em que a onipresença do olhar alheio se infiltra e é introjetada como parâmetro de medida, régua invisível que decide o que merece existir sob luz boa e o que permanece exilado na sombra, fora de quadro. Sabemos, na psicanálise, que o olhar do outro nos constitui, mas aqui ela trata das dimensões patológicas, ou ao menos perturbadoras, dessa constatação.
A autora escolhe não nos conduzir por uma narrativa linear, mas por uma constelação de cenas e figuras emblemáticas, como se cada celebridade, cada mito, fosse um fragmento de espelho, respondendo por uma parte da história. Kim Kardashian, Kylie Jenner, Marilyn Monroe, a imperatriz Sissi e a própria madrasta de Branca de Neve entram em cena como personagens de um teatro de vaidades e vulnerabilidades em que não há saída. Mesmo quem está fora das redes, está de certo modo afetado por sua dinâmica performativa.
Strömquist parece se interessar menos em julgar quem são essas pessoas e personagens e mais por aquilo que suas imagens condensam: o esforço para corresponder a uma beleza e autenticidade sempre inalcançáveis, a docilidade com que o corpo se oferece à cirurgia e procedimentos estéticos, aos filtros e edições, e a opacidade que vibra por baixo do brilho, como um músculo tenso que a foto ou o vídeo não revelam.
À medida que avançamos, torna‑se evidente que esse teatro não começou com o Instagram, e que o horror às “imperfeições” do corpo e a repulsa pela pele envelhecida não nasceram ontem. A autora faz, então, o movimento que lhe é característico: convoca a história, a filosofia, cita Susan Sontag, Naomi Wolf, Eva Illouz, e cruza esses nomes com fofocas de revista, boatos de tabloide, cenas de reality show.
O resultado não é um tratado sistemático, mas algo mais vivo, mais incômodo, como se o texto teórico, ao ser desenhado, ganhasse uma fisicalidade nova, que nos interpela a cada quadro. Há algo literário nesse gesto de trazer as citações não como argumentos de autoridade, mas como vozes que entram no quadro como se fossem personagens, caminhando lado a lado com rainhas enciumadas e influenciadoras em crise.
O humor, talvez, seja o dispositivo mais refinado dessa engrenagem. Em vez de se apoiar na gravidade do tema — e o tema é grave —, envolve sofrimento psíquico, transtorno alimentar, diversas formas de violência —, Strömquist escolhe o riso como forma de estranhamento. Não se trata de ridicularizar quem sofre, mas de expor o ridículo das exigências às quais todas as pessoas, em maior ou menor grau, se submetem: o contorcionismo para caber em uma foto, o cálculo obsessivo do ângulo, o desejo paradoxal de parecer espontânea, ainda que nada, ali, tenha espontaneidade alguma.
O traço de seus desenhos, às vezes esquemático, às vezes quase infantil, e o uso de cores vibrantes, reforçam a sensação de que estamos diante de um brinquedo perigoso: sedutor como um carrossel, mas girando rápido demais, a ponto de provocar enjoo.
É nesse ponto que o livro mais se aproxima de ensaio literário em quadrinhos: a reflexão não se limita ao conteúdo das falas, das notas de rodapé, mas se espalha pela própria forma, pelo ritmo dos quadros, pela maneira como a paginação organiza o olhar. Em Na sala dos espelhos, a leitura é também um exercício de autoinvestigação: percebemos em nós movimentos semelhantes aos que a autora descreve — a curiosidade pelo corpo alheio, o impulso comparativo, a vontade de ver e ser vista. O espelho, então, deixa de ser apenas um dispositivo temático e passa a ser uma estrutura, um modo de organizar texto e imagem de forma que cada exemplo, cada anedota, devolva a quem lê uma pergunta silenciosa: “e você, de que lado se imagina?”.
Nesse panorama, a inveja e a competitividade aparecem não como falhas morais individuais, mas como sintomas de um regime perverso que nos molda, desde muito cedo, a buscar aprovação desmedida. Quando a madrasta consulta seu espelho mágico, o gesto, na leitura de Strömquist, já não é apenas capricho de vilã. É a mesma pergunta, preenchida de fantasias e projeções: quem está melhor que eu? quem envelheceu? quem fracassou? – e, por trás de cada resposta, a promessa de uma pequena trégua na autocrítica feroz, tão breve quanto o intervalo entre um scroll e outro.
Se Na sala dos espelhos parece falar de tudo isso com uma familiaridade desconcertante é também porque o livro não surge no vácuo, mas se inscreve numa obra que, desde cedo, se dedicou a olhar a imagem, o amor e até o céu — esse céu de signos — com a mesma mistura de seriedade e sarcasmo.
Em A origem do mundo, Strömquist ensaia uma história cultural da vulva num mundo determinado pelo olhar masculino, tratando das camadas de desconforto que configuraram a relação das mulheres com a própria sexualidade. Já em A rosa mais vermelha desabrocha, a autora volta o olhar para o amor romântico, perguntando por que, em nosso tempo, parece tão difícil se apaixonar, e por que o amor, quando chega, carrega tantas contradições entre idealizações e experiências vividas.
Esses livros formam uma espécie de trilogia, em que corpos, amor e constituição subjetiva — palavras tão abstratas — são trazidos para perto, como se a autora dissesse, o tempo todo, que não há nada verdadeiramente íntimo que não seja também político.
Na sala dos espelhos fecha esse arco provisório, conectando a experiência de nos observar à de ser olhado pelo mundo, real e virtual. O livro denuncia séculos de discursos, de regulações, de promessas vazias de salvação.
Na tradução brasileira, assinada por Kristin Lie Garrubo (não consigo nem imaginar o quão trabalhosa tenha sido), esse universo chega a quem lê com uma fluência que disfarça a intrincada coreografia de referências e mudanças rápidas de registro. Há, na passagem do sueco para o português, um trabalho de transposição que vai bem além da equivalência de palavras. É preciso reencenar piadas, adaptar jogos de linguagem, negociar a densidade das citações, tudo sem romper o tom de conversa espirituosa que constitui a obra da autora. A tradutora, que verteu também as demais obras, consegue nos assegurar que a voz que escutamos ao ler seja, ao mesmo tempo, estrangeira e próxima.
Ao fim, o que permanece de Na sala dos espelhos talvez seja menos uma tese conclusiva e mais uma série de perguntas inquietantes. Depois de lê-lo, já não é possível nos olhar — nem olhar para os outros — com a mesma ingenuidade. Há uma camada nova de consciência, um filtro que não suaviza, mas acentua as asperezas do que se vê: o cansaço de quem precisa de constante validação.
Talvez a literatura, nesse formato híbrido de HQ‑ensaio que Strömquist explora com originalidade, seja justamente isto: um convite não para fugir do mundo, mas para enxergar, com um pouco mais de nitidez, os fios que compõem a trama em que estamos presos. E, quem sabe, com sorte, desatar alguns fios.