O nome do mágico

No almoxarifado de “O Globo”, o tio Mário revela uma magia feita de olhos, baleias e memórias, capaz de transformar o cotidiano em literatura
Ilustração: Denise Gonçalves
01/07/2026

Existem homens que passam a vida a se esconder. A ausência é seu ideal. Foi o caso de meu tio Mário. Trabalhou, durante muitos anos, submerso no almoxarifado de O Globo. A reserva e a modéstia o definiam. Quando eu lhe perguntava o que fazia no grande depósito do jornal, limitava-se a dizer: “Um dia, eu o levo para ver”. Alguma coisa o impedia de cumprir essa promessa. Talvez uma amante secreta, eu pensava. Talvez uma vergonha, ou um crime. Às vezes, agoniado, eu repetia a mesma pergunta a meu pai. Aliando-se a meu tio, ele respondia: “São coisas”.

Nas festas de família, quando insistiam em perguntar a meu tio qual era, afinal, seu trabalho, ele explicava: “Vocês sabem, sou jornaleiro e mágico”. Nunca teve uma banca de jornal. Tampouco o vi fazendo mágicas. Recentemente, quando li Mário e o mágico, a novela de Thomas Mann, lembrei-me todo o tempo dele. Contudo, tio Mário não era perverso e manipulador como o mágico Cipolla, de Mann. Também não era ingênuo e indefeso como o garçom Mário. Meu tio Mário era esquivo e inacessível, mas era bom. E era só isso.

Chegou, enfim, o dia em que ele perguntou a meu pai se podia me levar para conhecer o depósito. Lembro-me de minha agitação quando, de mãos dadas com tio Mário, desci aos subterrâneos do Globo. Não sei se eram subterrâneos, mas me passaram uma impressão de mistério. “Você está entrando na barriga da baleia”, ele anunciou em voz baixa, confirmando meus sentimentos de menino.

Na verdade, ali começava sua carreira de mágico. Meu tio sabia transformar um depósito estreito e abafado em um mundo sobrenatural. Sabia coisas — as tais coisas de que meu pai falava e que eu desconhecia e temia. “Não tropece nos barbantes que amarram os jornais”, ele me disse. “Podem enforcá-lo.” Acreditei em sua ameaça. Eram pilhas muito mais altas que eu. Se desabassem, pensei, eu seria massacrado. De mãos dadas com meu tio, imaginei que nada de mal me aconteceria. Ele era o contrário do Cipolla, de Thomas Mann. Ele só fazia o bem.

Não eram só jornais. Lembro vagamente. Roldanas imensas, carretilhas, galões de tinta, carretéis de fios e de barbante, de dutos, se espremiam entre suportes, caixas lacradas, solados, gradeados e pilhas de galochas e jaquetas amarelas. É disso que eu me lembro e que hoje, com medo, me arrisco a nomear. Talvez esteja confundindo com outro lugar em que estive. Talvez não fosse o Globo, fosse o porão de um navio. Talvez meu tio fosse marinheiro. As lembranças da infância são gelatinosas, grudam e se misturam.

Eu não sabia bem o que via, apenas via. Mas, na época, estes eram os órgãos estranhos que compunham os intestinos da grande baleia. Meu tio ainda falava da baleia quando, pela primeira vez, eu o vi. Espremido entre caixotes, com a cabeça recostada em jornais e as pernas abertas, um velho ressonava. A pança imensa, o bigode branco, o nariz de batata. Eu estava diante do Gepeto, de Collodi, que eu conhecia dos desenhos animados. Idoso e pobre, ele sobrevivia no ventre da baleia. Não era bem uma baleia, mas, imitando meu tio e dando os primeiros passos nas artes mágicas, eu decidi que era. No interior do grande ventre, só faltava uma vela para iluminar a escuridão.

“É ele!” — eu gritei. Fiquei paralisado, com medo de despertá-lo, mas também sem coragem de retroceder e perdê-lo para sempre. “É ele!” — agora, um pouco mais calmo, sussurrei aos ouvidos de meu tio. “É ele sim, como você descobriu?” — meu tio me perguntou. Tio Mário me puxou pela mão para seguir adiante, mas eu resistia. Aquele velho, Gepeto, ele mesmo, era a prova de que tio Mário era um mágico. Só podia ser mágica aquela descida ao estômago do monstro. Aquilo não existia, mas eu estava vendo o que não existia. Há magia mais radical?

A partir dali, aprendi com meu tio Mário a ver o inexistente. Tornei-me um mágico também. No cinema, não me interessava pelo filme, mas pela luz dos lanterninhas que caminhavam pelos corredores. “Você vê essa luz?” — meu tio me perguntava. “É o olho de uma serpente.” Explicava que as serpentes marinhas só têm um olho. E que ele emite uma luz sagrada. O segundo olho é cego e não brilha, por isso, só vemos a luz de um deles. Na igreja, ele me advertia a respeito dos segredos do turíbulo, o vaso místico em que os padres carregam o incenso. “Ali se esconde o olho de Deus”, um dia ele me explicou. Meu tio via olhos por toda a parte. Havia sempre algo ou alguém a nos vigiar. E também a nos escapar. “Não existe nada mais importante que os olhos”, me disse. “Mas é preciso aprender a olhar.”

Desde cedo, lutou contra problemas crônicos na vista. Sempre que saía comigo, meu pai insistia que devíamos ter cuidado com os cães raivosos, os desníveis no calçamento e os sinaleiros. “Seu tio logo ficará cego”, dizia. “Não confie em tudo o que ele vê.” Contudo, eu acreditava cada vez mais em seu olhar. Confiava nele cegamente. Tio Mário me ensinou a suspeitar das coisas que vejo. A palavra certa não é “suspeitar”. Não há sofrimento ou aflição alguma nisso. Na verdade, ele me ensinou a ver através das coisas que vejo. Uma coisa nunca é uma coisa, uma coisa é sempre outra coisa que se esconde atrás dela. E isso é a magia. Assim me tornei mágico também.

Os anos se passaram; eu cresci. Muito tempo depois, em um almoço de família, meu tio Mário recordou aquele dia em que, enfim, as portas do almoxarifado se abriram para mim. Então me perguntou: “Afinal, quem era aquele velho que o espantou tanto?” A pergunta me assombrou. “Não entendo, tio. Eu lhe perguntei se era ele mesmo, e você disse que sim.” Como, agora, ele não sabia mais quem era o velho? “Disse que sim só para concordar com você”, me explicou. “Era o Gepeto, das histórias do Pinóquio”, reagi indignado. Meu tio Mário só se lembrava vagamente do nome. Recordei a história de Collodi e o episódio da baleia. “Não sei de nada disso”, ele me disse. “Só você o viu.” Para meu tio Mário, aquele homem era só um velho empregado do depósito que tinha bebido um pouco demais. O mágico, no caso, era eu.

José Castello

É escritor e jornalista. Autor do romance Ribamar, entre outros livros.

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