Em fila indiana no corredor do colégio, os alunos esperam pelo professor de latim. Enquanto todos, abnegados, resistem, eu sinto muito medo. Medo não do corredor ou do professor, nem mesmo do latim. Medo de algo que vem desde muito antes. Desde onde? Vasculho a memória, esse grande depósito de impressões, em cujas prateleiras mofadas e tortas minhas crônicas se abastecem. Tudo o que consigo ver é que tenho medo do Sentinela.
As imagens retornam, estendidas umas sobre as outras, presas ao grande varal do tempo. Quando escrevo, a esses fios me agarro. O que vejo? Nos fundos do colégio, há um descampado. Entre cavalos e moscas, o jovem Sentinela está em seu posto à entrada da várzea. Quando penso nele, a voz irritante do professor de Latim me corrige: “Não é o sentinela; é a sentinela. Mesmo sendo um rapaz, você deve usar o feminino”. Recuso-me a empregar o feminino para falar de um garoto que tem o rosto quadrado, a barba áspera e o pescoço cheio de veias. Não me importa a gramática, mas a realidade.
O Sentinela é mais velho do que eu. Nunca nos falamos, de modo que jamais me disse algo que pudesse me aborrecer ou humilhar. Só me repugna o fedor de seu corpo, mas muitos rapazes do campo fedem. Eu mesmo, que não sou do campo, quase sempre cheiro mal. Insisto: nada tenho contra o rapaz, compenetrado em seu posto de trabalho. Usa a mesma farda surrada e as botas com os cadarços soltos. Isso eu sempre observo porque, caso ele decida me perseguir, terá grandes chances de tropeçar.
Da entrada do descampado, a única coisa que avisto é o hangar desativado do Zeppelin. Mas havia um hangar para o Zeppelin em Botafogo? A memória é perigosa, mas isso não me interessa. Só consigo pensar que o Sentinela me atacará. Nem chega a ser um pensamento ou um pressentimento: é uma certeza. Não sei como o ataque acontecerá, apenas sinto medo. Tento vencer o medo e me aproximar do rapaz. Sai-me então a pergunta idiota: “Será que hoje chove?”. O Sentinela dá um passo à frente e diz: “Sai para lá. Aqui ninguém entra. Só entram os homens do Zeppelin”.
Depois da pergunta idiota, dei as costas e fugi. Corri em disparada de volta ao colégio. Devia ter 8 ou 9 anos. Escapei de um perigo que desconhecia, mas estava salvo. Mesmo assim, voltei outras vezes ao descampado e a cena, com variações sutis, se repetiu. Eu queria atravessar a cancela, o rapaz não deixava. Estufava o peito, fechava a cara e se mantinha inerte. Parece que eu desejava justamente essa proibição. Ansiava por ela, como um drogado. Eu queria a alegria do “não”. Como em Kafka, eu jogava com a Lei.
Nunca mais voltei ao descampado. Dessas lembranças, sobrou o medo. Medo sem objeto que, nos corredores dos jesuítas, eu continuava a sentir. Eu era um menino tolo, balofo, feio, quase sem sangue. O Sentinela também não era grande coisa, mas tinha uma farda e isso lhe dava alguma grandeza. Em farrapos, mas uma farda. Ele fazia parte de uma série, a dos garotos fardados. Ele era alguém. Contudo, quem ele era? Nunca soube seu nome, mas isso não importa. Não importa quem ele era; importa quem eu era. E eu estava reduzido ao medo que sentia. Até hoje, tudo o que restou é o medo.
Lembro bem: não havia nenhuma divisória ou demarcação visível. Havia o portão, e além dele mais nada. Nem mesmo uma estrada ou uma trilha. Estranho portão, que não dava acesso a coisa alguma, só a si mesmo. Estranha cancela, que nada barrava, só atravancava o caminho. E agora aqui estou, à espera do professor de Latim que não chega. Tudo desapareceu: o Sentinela, o descampado, o portão. As moscas e os cavalos também. Só ficou um medo puro, que gira em torno de mim. Que me assombra. Da vida, ficam os sentimentos. Com eles construímos a memória. Ou será da memória que construímos os sentimentos?
Enfim, chega o professor. Abre a porta da sala e diz: “Vamos entrando”. Meu medo aumenta. Tomo meu lugar, abro o caderno. O professor começa suas anotações no quadro-negro. Sou incapaz de segui-las, pois o medo toma conta de tudo. Antes o Sentinela aparecesse para incorporar meus temores. Eu fugiria dele e o medo desapareceria. Mas já não há Sentinela algum. Não há sequer um portão a me barrar. Mesmo com todas as cadeiras ocupadas pelos alunos, a sala de aula dos jesuítas se parece com um deserto. Sou um beduíno que vaga pelo vazio.
O bondoso professor de Latim percebe meu desencanto e, depois da aula, me chama para conversar. “Estou preso a um sentimento”, eu lhe digo. “Um sentimento que me inferniza e que não serve para nada.” Cheio de dedos, envergonhado, resumo a história do Sentinela. Depois de me ouvir, o professor me diz: “Todos precisamos de um inimigo. Sem alguém para enfrentar, sem um rival, os homens morrem”. Me disse ainda que, para um rapaz, é essencial eleger um oponente. Sem esse antagonista, ficamos com sentimentos frouxos, como as moças. Ele disse.
Não se trata de odiar, mas de lutar, ainda me alertou. “Sem luta não há vida.” Ocorre que sempre me esquivei do enfrentamento. Disfarçava, fugia, negava, tudo para não desafiar os outros. Foi o que fiz com o Sentinela: meu medo foi uma maneira de apagá-lo. Ocorreu que, ao fazer isso, apaguei a mim também. E agora aqui estou, com um sentimento puro e bruto, um diamante inútil, desprovido de brilho. Como uma faca sem sua carne ou um copo sem sua água.
Observo meus colegas de sala. Banho tomado, uniformes passados, cheirando a lavanda. Belos penteados, sapatos brilhantes e cuecas limpas. Eles estão em paz porque acreditam que têm algo a defender e algo a enfrentar. Enquanto isso, o professor desiste de mim e se vai. No mesmo momento, um vento gelado entra pela janela da sala de aula. Quisera ser o Sentinela. Estar em meu posto diante do portão. Sujo, repulsivo, pobre rapaz, mas cheio de certezas. Estar lá, atento ao sopro do vento e ao mugir das vacas. Não ter dúvidas. Não sofrer. Saber quem sou. Mas isso existe?