Por causa de uma série de eventos paulistanos imitando o carioca revoltado na enchente, estou eu aqui dentro de um labirinto burocrático digno de Kafka e sairei minotaura com uma placa sem personalidade, graça ou elegância. Gostava das placas indiscretas que me contavam a cidade de onde vinham. Adorava ficar lendo os nomes dos lugares. Quanto mais estranho, melhor. De vez em quando, achava alguma cidadezinha da minha biografia. Mas não. Essa diversão nos foi sequestrada.
Em uma gigante TV de um bar no meu caminho, um placar de futebol. Leio “Bragantino”. Uma boa parte da minha família materna torcia — não lembro se contra ou a favor desse time. Eram de cidades como Ribeirão Preto, Jaú, Capim Fino. A conversa sobre futebol não me interessava então e assim continua, mas lembro que Bragantino era uma palavra dita com muita emoção. “Dita” aqui em um sentido lato.
A família, que era inicialmente enorme, dessas típicas de imigrantes italianos, foi diminuindo. A perda foi mais afetiva do que literal. Minha avó hoje teria algo como uns 110 anos e era a mais velha de uma penca. Seus irmãos se foram todos antes dela. Seus filhos, da geração da minha mãe, ainda estão cá e lá, me parece. Os netos, nem que se sentassem do meu lado no metrô, eu saberia quem são.
Estive em festas e feriados alongados nessas cidades do interior de São Paulo. Existe, na cabeça de um ser urbaníssimo como eu, a descrença de que a vida seja aquilo mesmo. Seja almoçar, tomar cerveja, jogar sinuca, torcer em volta do Bragantino, sei lá. Tinha também alguns quinzes. O XV de Novembro de Jaú, o XV de Piracicaba e a Quinceañera de algumas primas distantes cujos nomes eu não me lembro e de quem não sinto falta.
Então, se a gente não acredita, o que a gente faz? Isso mesmo, cria. Inventa assassinatos, traições, intrigas e jogos de espionagem. Quando eu era levada a Ribeirão Preto, gostava de sentar nos bancos de alvenaria da praça quase em frente à casa dos tios-avós que íamos visitar. Naqueles bancos, olhando para a copa das árvores ou para algum passarinho, macaquinho, esquilinho, minhoquinha, qualquer coisinha, minha cabeça ia longe. As aventuras que vivi através do meu estojo cheio de cores eram mais interessantes do que o senta-menina, come-menina, agradece-menina, senta-feito-uma-menina, desce-daí-menina que faziam parte do meu cotidiano.
Naquela casa, meio que a contragosto, ou ao menos sempre assim me parecia, vivia um tio. Ou marido de tia. Algo assim. Ele morava em um puxadinho da casa, no quintal. E criava pássaros soltos. Entre eles, um corvo. O pássaro era mais inteligente e bonito que todos os demais seres vivos ali somados.
Eu sempre via o corvo no ombro ou no dedo desse tio. Cheguei mesmo a achar que não voasse, que só caminhasse e pulasse.
Eu devia ter uns 6, 7 anos quando fiz o meu primeiro plano criminoso. Eu queria roubar o corvo. Ele iria se chamar Arlindo e ia morar no meu armário.
E então, na manhã seguinte, eu o vi voar. Um voo suave, lindo e elegante.
E foi nesse dia que entendi que o egoísmo é bruto, feio e deselegante.
Ainda sonho, de vez em quando, com o voo do Arlindo.