Em um mundo cada vez mais barulhento e que exige atenção ininterrupta, o silêncio e a desconexão se tornaram um artigo de luxo. Mesmo em ambientes que permitem a abstração, como parques, museus e cinemas, muitas vezes escolhemos não nos desconectar e, assim, perdemos parte de uma experiência que seria muito melhor aproveitada se estivéssemos longe das redes sociais. Mas a pergunta que fica é: é possível viver de outra forma? O cineasta alemão Wim Wenders acredita que sim.
A poética da realidade
Dias perfeitos, um dos seus filmes mais recentes, pode ser a chave para resolver essa equação que, por vezes, parece insolucionável. O longa, que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2024, é um elogio a uma vida mais simples, menos superestimulada e mais focada nos pequenos prazeres cotidianos.
Dias perfeitos tem uma história quase banal, mas que, na sua essência, esconde uma grande força poética. Em suas duas horas de duração, o filme nos mostra o cotidiano de Hirayama, um limpador de banheiros em Tóquio. Não há nenhum grande evento em Dias perfeitos, muito pelo contrário: o que observamos é um homem que acorda, faz a barba, molha suas plantas, toma café e vai para o trabalho, onde permanece quase sempre em silêncio. Durante o almoço, contempla a natureza e observa a cidade. Quando volta para casa, toma banho em uma casa de banhos, janta em um restaurante simples e, antes de dormir, lê um livro.
Hirayama é a antítese dos valores contemporâneos e do pragmatismo dos nossos tempos. Se hoje tudo precisa ser rápido, sem interação real e sem deixar marcas profundas na memória das pessoas, o que ele vive é uma vida contemplativa, distante da superficialidade dos algoritmos e muito mais verdadeira. Hirayama não tem uma vida mediada, não está a serviço da sociedade do cansaço e tampouco se perde no emaranhado de informações inúteis. Em qualquer coisa que faça, existe uma entrega real, um mergulho na poética da realidade.
Um dos exemplos mais bonitos e claros de como Hirayama está vivendo, e não apenas existindo, como diria Oscar Wilde, é justamente na sua relação com a música. Primeiro, Hirayama desconhece o Spotify, ainda escuta suas músicas em fitas cassete no seu carro, exige a materialidade da experiência. Quando escolhe o que ouvir, faz uma escolha consciente, olhando para si, para o seu estado de espírito e para o significado daquele disco em específico.
Depois, quando o seu colega de trabalho, um jovem embevecido pela superficialidade do mundo atual, tenta convencer Hirayama a vender algumas das suas fitas raras para que o rapaz possa sair com uma menina, Hirayama prefere dar a ele o dinheiro a se desfazer daquilo que realmente tem valor. O dinheiro não é o fio condutor da sua vida, mas apenas uma convenção social.
Atenção, cansaço e transparência
Wim Wenders é um amante do silêncio. Em Paris, Texas, por exemplo, a incomunicabilidade é um elemento importante na trama. Em Dias perfeitos, esse mesmo silêncio tem o sentido de resistência. Isso porque vivemos a era do que se convencionou chamar de economia da atenção, conceito do qual Herbert Simon é um dos precursores, ao destacar, já em 1971, a escassez da atenção diante da abundância de informações.
É um período histórico em que as grandes empresas disputam não só a atenção, mas também o tempo das pessoas. Por isso, nunca a expressão “tempo é dinheiro” foi tão verdadeira. Quanto mais tempo alguém passa conectado, mais dinheiro se gera.
Jonathan Crary, no livro 24/7: o capitalismo tardio e os fins do sono, explica como cada vez mais o não dormir se tornou rentável e necessário para que a economia gire e sejamos bombardeados minuto após minuto por anúncios que prometem resolver problemas criados, em sua maioria, pela impossibilidade de desconexão.
Essa é a sociedade do cansaço de que nos fala o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han. Logo no início do livro A sociedade do cansaço, ele nos explica que o mal do século 21 será neurológico e não epidemiológico, como foi no século anterior — e a contenção da crise do covid-19 mostra que ele está certo. Han apresenta como uma sociedade da transparência, na qual estamos expostos e nos expondo o tempo todo, leva ao colapso individual e coletivo.
Cada vez mais as questões de saúde mental são discutidas e se tornam a pedra angular do que entendemos como qualidade de vida. Hirayama parece conseguir colocar em prática algo sobre o qual o filósofo alemão Theodor Adorno já refletia no final dos anos 1960: a importância do tempo livre. Segundo Adorno, o único objetivo do trabalhador é o tempo livre, mas não o tempo livre de hoje, que também é monetizado e comercializado em uma frágil e pretensa invisibilidade, mas o tempo livre de desconexão, de encontro e de valorização daquilo que é realmente importante.
Não que antes o tempo livre não fosse comercializado, sempre foi, por meio do cinema, da pipoca no parque, dos parques de diversões etc. A grande diferença é que esse acordo sempre esteve muito bem estipulado, sem a fachada da gratuidade, por exemplo, das redes sociais e do scroll infinito. Por isso, quando Hirayama vai a uma livraria de livros usados ou opta andar de bicicleta, ele, na verdade, está se voltando para si mesmo e para os pequenos prazeres que já comentamos.
Loucura e contemplação
Nós descobrimos que Hirayama escolheu viver dessa maneira quando conhecemos a sua irmã. E nesse ponto, entendemos que, apesar de tudo o que vimos até aquele instante, a sua vida não é completamente aceita. Em uma sociedade fragmentada, que pede por resultados e performance, a lentidão e a contemplação são vistas como loucura, como fuga, quando, na verdade, representam o mais puro mergulho na essência da natureza humana.