Na mesa de trabalho, empilhados sobre a caixa onde guardo a cola Tenaz e o grampeador, há três livros: Museu dos sonhos, A torre e Uma reserva de sutilezas. Aguardam há meses que eu escreva algo sobre eles. Estão ali porque foram lidos com carinho e esse afeto os mantém à minha vista, para um último afago antes de serem guardados na prateleira fora do alcance. Entre ler um livro e guardá-lo, há uma antessala sem relógio.
Aqui em casa, há várias etapas para os livros que recebo ou compro por curiosidade, nas campanhas de pré-venda. A parada menos nobre é a pilha de “não abertos”, no fundo da estante. Guardo ali os que chegaram sem ter sido solicitados. Por princípio, não descarto um livro sem ao menos tê-lo aberto. Esse cuidado faz com que a pilha se acumule. Finalmente, quando o espaço chega ao limite, abro todos e os encaminho à próxima etapa. Alguns vão direto para a sacola de doação. Outros para a fileira “não lidos / a ler” — uma posição mais nobre, à frente da estante.
Passo os olhos pela fileira de “não lidos” com certa frequência — buscando algo para ler num domingo ou num longo dia de trabalho fora de casa, com prováveis horas de espera. Eles são minha companhia num café, ou no banheiro, ou na sala de espera dos professores. Alguns me fisgam. Um sentimento se insinua e nos une. Penso, então, que o livro merece um carinho a mais: uma mensagem para a pessoa que o escreveu, talvez; ou um post no Instagram; ou, quando o sentimento é mais forte, uma crônica.
Enternecida por esse desejo de dedicação, acomodo tais livros em minha mesa de trabalho, sobre a caixa do grampeador e da cola Tenaz. É a crueldade do amor. Amar demanda tempo e energia, por isso ele é racionado. Onde achar uma hora inteira, ou meia, ou duas, pra tirar uma foto da obra e postar um comentário pessoal? O que comentar, afinal? Escolher as palavras é o que mais demora. E, nos dias espremidos entre trabalho, manutenção doméstica, deslizes e ambições desajustadas, os livros vão ficando sobre a caixa…
Faz um ano que decidi escrever, nestas crônicas, sobre os livros dessa pilha. Inspirei-me no volume Vida literária, de Mário de Andrade, que reúne artigos publicados no Diário de Notícias entre 1939 e 1940. Li a coletânea em 2008 (há um boleto desse ano como marcador de página). Fiquei fascinada, na época, com a atenção que Mário de Andrade devota a autores pouco conhecidos, que hoje desapareceram da memória coletiva… Quem ainda fala de Trinta anos sem paisagem, de Guilherme Figueiredo? Ou Sul, de Guilhermino César? E, ainda assim, Mário de Andrade escreveu sobre eles, em 1939. Ao final de cada artigo, ele organizava uma lista de “livros recebidos”.
Mário está lindo, na capa do volume, de pijama e roupão, e um cigarro no canto da boca. De óculos, lê um grosso exemplar, numa mesa bagunçada. Decidi imitá-lo.
Assim, voltamos ao primeiro parágrafo: os três livros que me esperam — Museu dos sonhos, A torre e Uma reserva de sutilezas. Das autoras Eugênia Ribas-Vieira, Thaís Alcoforado e Aline Aimée, nessa ordem. Duas obras de poesia e uma coleção de microcontos oníricos.
Foram três livros que li em trânsito, nesta enorme e cansativa cidade de São Paulo; livros que carreguei na mochila para ter comigo um tantinho de pureza — uma reserva de sutilezas, um sonho — enquanto me empurrava pra lá e pra cá na batalha diária.
“Nunca quis mastigar este mundo indócil”, escreve Eugênia — “não se perca o brilho insinuado na superfície”, diz um verso de Aline — “Assistir a vida como quem assiste a uma novela ruim em espanhol”, leio em Thaís.
Que suas palavras me protejam. Hoje ainda preciso fazer ginástica e trabalhar até depois de anoitecer. Ao menos, escrevi esta crônica. E me entristece terminá-la. Por um instante, fecho os olhos, esqueço que o tempo corre e que nos precipitamos, devolvendo à estante os livros e a memória de Mário de Andrade.