Qual o futuro da língua portuguesa em Angola?

O português é a primeira língua materna dos angolanos e, em termos de alcance, a única verdadeiramente nacional
Biblioteca de rua, do projeto “Leitura Grátis”, em Luanda, capital de Angola.
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07/06/2021

O autor escreve segundo o acordo ortográfico e a variante angolano da língua portuguesa

A coluna de hoje tem por objetivo alinhavar duas ou três notas sobre o possível futuro da língua portuguesa em Angola. Começo por defender algo óbvio: quanto mais línguas dominarmos, melhor. É, pois, uma “mais valia” para todos nós – usando essa expressão no sentido que ela adquiriu entre os angolanos – o facto de sermos e vivermos num país multilingue. Isso inclui quer as línguas nacionais quer as línguas estrangeiras internacionais, cujo domínio por segmentos importantes da nossa população é um facto, seja por razões históricas (caso do francês) seja pela necessidade de inserção no mercado global (caso do inglês e, quem sabe, num futuro mais ou menos próximo, o mandarim).

Dito isso, reitero uma opinião que tenho defendido habitualmente, no debate linguístico que ocorre entre nós desde a independência de Angola: em termos de origem histórica, o português é uma língua tão nacional como as restantes línguas faladas no território angolano pelas diferentes comunidades aqui enraizadas. O meu principal argumento nesse sentido é o seguinte: Angola, como uma entidade constituída pelo seu atual território e habitada pelos diferentes grupos que a povoaram e povoam é resultado do contacto histórico entre os povos africanos que aqui habitavam e os colonizadores europeus; sem esse contacto, talvez não houvesse Angola, tal como a conhecemos, mas, sim, uma série de vários outros países.

O facto de se tratar de uma língua proveniente do exterior não lhe retira o caráter nacional angolano, pois há muito que foi nacionalizada. O mesmo sucedeu à maioria das línguas bantus faladas no território angolano, pois, além dos bantus não serem originários do território angolano, as línguas dessa etimologia faladas em Angola, com exceção do umbundu e do kimbundu, não são exclusivamente nacionais. Creio que o mesmo acontecerá com a língua dos próprios khoisan, afinal o único povo originário do hoje território angolano.

A História demonstra, desde sempre e em todo o lado, que é possível cada comunidade ou grupo de comunidades apropriar-se e nacionalizar produtos, bens, artefactos, crenças, valores, ideias – que sabemos nós? – originariamente estrangeiros. Foi o que fizemos, só para dar estes exemplos, com a mandioca, o milho, o cristianismo, as ideias políticas ocidentais, a língua portuguesa e – acrescente-se – o lingala, essa língua criada nos nossos dois vizinhos do Norte – a República do Congo e a República Democrática do Congo – para facilitar o comércio ao longo do rio Zaire e que penetrou em Angola depois da independência do nosso país.

Tudo isso, hoje, é nacional. No caso da língua portuguesa, acresce que, em termos de dimensão e alcance, é a única língua verdadeiramente nacional, pois, além da mais falada, só ela permite a comunicação entre todos os grupos e indivíduos que habitam o território angolano. Os que eventualmente insistirem em duvidar disso, devem consultar os resultados do censo realizado em 2014, segundo os quais o português já é a principal língua falada em casa pelos angolanos, seguida do umbundu.

Não tenho, portanto, nenhuma dúvida quanto ao futuro da língua portuguesa (o que receio, na verdade, é que não sejamos capazes de formular e executar políticas corretas de diálogo e cooperação entre o português as línguas africanas do nosso país). De igual modo, Angola poderá ser particularmente responsável pela expansão internacional da referida língua, a começar pela África Austral e Central.

A questão é: qual será a língua portuguesa falada e escrita em Angola? Não será a mesma usada nem em Portugal nem no Brasil. Está claramente em formação uma variante angolana do português, que se há de impor inevitavelmente ao longo do tempo.

Esse processo, entretanto, não pode ser deixado ao acaso ou, pior ainda, ao populismo e à demagogia, como agem os que pretendem convencer-nos de que a desejada “norma angolana” consiste em falar e escrever como cada um entende. Isso é contrário à própria ideia de “norma”. A propósito, recomendo a leitura do artigo do professor Nelson Soquessa publicado no semanário O País no passado dia 6 de fevereiro de 2021, sob o título “Português de Angola: uma variedade carente de registos e legislação”, o qual pode ser baixado facilmente da Internet. Em síntese, Soquessa diz que não basta dizer que existe o “português de Angola”, mas é preciso estudá-lo profundamente e legislar em conformidade. Sem isso, será o caos.

Para obviá-lo, nós, angolanos, precisamos de seguir o exemplo de Moçambique. Os nossos irmãos do Índico, além de terem produzido abundantes descrições linguísticas, como pede Soquessa no nosso caso, já têm concluído desde 2017 o Vocabulário Ortográfico Moçambicano da Língua Portuguesa e estão a elaborar o primeiro Dicionário do Português de Moçambique.

João Melo

Nasceu em Luanda (Angola), em 1955. É escritor e jornalista. Morou no Brasil de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa. Tem mais de 20 livros publicados, entre poesia, conto e ensaios, em Angola, Portugal, Itália, Cuba e Brasil, onde publicou a coletânea de contos Filhos da Pátria (Record, 2008). Pode ser acompanhado no Twitter e no Instagram.

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