🔓 Mastigar vidros

O triste destino de uma deliciosa lasanha e o fim das reuniões à mesa na casa da avó
Ilustração: Eduardo Mussi
01/01/2023

O Natal mais memorável da minha vida foi aquele em que quase mastigamos vidro. Era sempre na casa da minha avĂł, na mesa grande da copa, que mal acomodava primos, tios, tias. Alguns solĂ­citos iam se alojar pelos cantos, nos banquinhos da cozinha. NĂłs, que vĂ­nhamos de outro estado, devĂ­amos ser tratados com o melhor lugar e por isso nem nos oferecĂ­amos para deixar o palco da ceia. Na mesa grande da copa, a lasanha da noite era servida — fervilhante. A lasanha tĂŁo esperada, amada e sonhada de vĂ©spera… SĂł que, naquele ano, quando minha avĂł foi retirar a pirex do forno e levá-la Ă  mesa, no meio do caminho, algo trincou. Sim, a pirex.

Assistimos ao momento em que nossos sonhos se partiram diante de nós — eu estava exatamente no meio da mesa e pude ver em detalhes a fenda no vidro se abrindo. Era o prato principal da ceia, o resto era acessório. Com que fome chegaríamos para o arroz de passas depois de deglutir a lasanha dos deuses? Naquele ano, porém, algumas lascas de carne com o arroz era com que nos defenderíamos.

Acontece que minha avó não se consolava. Foi então que ela disse a frase que fez daquele Natal o último da grande mesa da copa: “A gente pode mastigar bem o vidro”.

SilĂŞncio.

Depois de alguns minutos desafiadores, meu pai disse: “Que loucura. Tem que jogar no lixo”.

Foi como se enterrasse um ser vivo. Inconsolável, minha avó levou a lasanha para seu triste final. Não conseguimos assistir à cena. Ficamos inertes, comentando na surdida a frase que desencadeara o que anos depois seria o colapso do entendimento da minha avó como pessoa no mundo. Pensei que todos nós talvez teremos o momento em que acharemos normal mastigar vidros para não desperdiçar uma lasanha.

Depois nunca mais tivemos Natal na casa dela. Transferimos a festa para a minha casa, e minha mĂŁe assumiu o comando. Nunca mais tivemos lasanha na ceia. Minha avĂł se fechou para o mundo pouco a pouco. Decidiu que nĂŁo gostava de Natal, nem de reuniões familiares, nem de estar com gente por perto. Chegou ao ponto de dizer que nĂŁo gostava de lasanha. Era mesmo o fim. Algumas frases sĂŁo como sentenças. Mastigar vidros Ă© uma delas…

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira e Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

Rascunho