Hasta la vista, Raúl

A vida do lendário cinegrafista cubano Raúl Booz, que esteve em vários países africanos e viveu 25 anos em Angola, dá um romance
O cinegrafista e fotógrafo cubano Raúl Booz.
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26/04/2021

É considerado uma lenda da cinematografia militar cubana e não o sabíamos. No que me diz respeito, não me lembro mais como o conheci. Só sei que nos tornámos amigos hasta siempre. Fizemos vários trabalhos juntos, quando ele era realizador e câmara da produtora televisiva Dread Locks, do Nguxi e do Dias dos Santos, com a qual a agência que tive até há poucos anos, a Movimento, colaborava. Como fotógrafo, registou alguns atos da minha família. Convivemos de perto em numerosas ocasiões, em particular em casa do Nguxi, do Dias e do João Belisário.

A simplicidade era o seu traço definidor. Nunca me falou, portanto, do seu passado revolucionário. Fê-lo, por certo, com pouca gente. Talvez devido ao espírito de solidariedade sul-americana, o tenha feito apenas com o Belisário, esse velho militante brasileiro que lutou contra a ditadura brasileira instaurada em 1964 e aqui veio parar em 1976, atraído pelas promessas revolucionárias da época.

A história de Raúl Booz – el negro Booz, como é tratado carinhosamente pelos seus colegas – dá um romance. Esteve na Guiné-Conacry e na Guiné-Bissau em 1973, quando Fidel Castro se encontrou com o líder do PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde), Amílcar Cabral, tendo filmado essa histórica reunião. Dois anos depois, quando Fidel anunciou, de comum acordo com Agostinho Neto, mas sem consultar os soviéticos, o desencadeamento da Operação Carlota (a ponte aérea que permitiu a intervenção das forças cubanas em auxílio dos combatentes do MPLA, a fim de travar a dupla invasão zairense e sul-africana em Angola), ele estava lá, registando tudo com a sua câmara.

Em 1975 e 1976, esteve nos combates cruciais contra as forças sul-africanas que haviam invadido o território angolano. As suas imagens dos primeiros quatro militares sul-africanos capturados nesses combates, na região da Quibala, estão nos arquivos de muitas cadeias televisivas internacionais, tendo, na altura, influenciado o reconhecimento, por uma margem estreitíssima, da República Popular de Angola pela OUA (Organização da Unidade Africana).

Raúl esteve também em vários outros países africanos, que foram palco de tentativas revolucionárias, como a Etiópia. Mas o seu sonho de há muitos anos – contaria ele mais tarde ao João Belisário – era morar em Angola. Assim, voltou para o nosso país em meados dos anos 90, iniciando uma permanência que acabaria por revelar-se imprevisível e atribulada, digna, como iniciei esta coluna, de um romance.

O que sei é que começou por trabalhar na Televisão Pública de Angola (TPA), onde chegou a integrar o projeto de produção daquela que seria a primeira grande novela angolana: O segredo da morta, do romance homónimo de António de Assis Júnior. Seria uma novela de época, como sonhava o então diretor da televisão estatal angolana, Carlos Cunha. Devido à situação geral do país, o projeto não avançou. Angola tinha iniciado um período de drásticas mudanças políticas e económicas, com o advento do multipartidarismo e da economia de mercado, e Raúl Booz teve de virar-se para sobreviver, começando a realizar outras atividades, ao mesmo tempo que mantinha a sua colaboração com a TPA.

Foi nessa altura e nessas circunstâncias que nos conhecemos. Raúl acabou por permanecer em Angola durante cerca de 25 anos, partilhando connosco as dificuldades diárias da maioria da população. Nos últimos tempos, as suas dificuldades agravaram-se, em especial depois de um acidente doméstico, no qual queimou uma das pernas. A piorar as coisas, roubaram-lhe as câmaras de cinema e de fotografar, assim como o seu laptop de trabalho.

Um grupo de ex-colegas na TPA e de amigos vários, liderado pelo João Belisário, montou então uma autêntica “operação” solidária, para recuperar a debilitada saúde de Raul Booz e permitir o seu regresso ao país natal. Graças a uma série de apoios individuais e institucionais, ele regressou em 17 de abril a Cuba, no voo da TAAG. Além dos seus pertences pessoais e de várias lembranças de Angola, levou também duas câmaras e um laptop novos.

Depois de ter cumprido uma quarentena de sete dias por causa da Covid-19, já está, a partir de hoje, com a sua família – a mulher, os filhos e os netos –, assim como os antigos colegas, que, admiravelmente, sempre o aguardaram, após tantos anos de ausência. Como combinado, a partir de agora saberemos uns dos outros pelo Whatsapp.

Hasta la vista, Raúl.

*** O autor escreve conforme o acordo ortográfico de língua portuguesa e a variante angolana da língua portuguesa.

João Melo

Nasceu em Luanda (Angola), em 1955. É escritor e jornalista. Morou no Brasil de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa. Tem mais de 20 livros publicados, entre poesia, conto e ensaios, em Angola, Portugal, Itália, Cuba e Brasil, onde publicou a coletânea de contos Filhos da Pátria (Record, 2008).

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