Do outro lado do espelho

O escritor respira seu tempo, esse ar poluído que respiramos, o mal-estar que tomou conta do país, toda a decadência da sociedade
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06/06/2021

Um episódio da série Black Mirror me inspira a falar da realidade onde tenho vivido há alguns meses. A história fala de uma terapia revolucionária para idosos em uma clínica – um chip colocado na cabeça deles aciona o pensamento para que sejam lançados mentalmente em outro tempo – anos 60, 70, 80, 90 – em uma cidade fictícia. Eles vivem momentos de juventude que são como uma espécie de recreio dentro da velhice. Achei perturbador, sobretudo quando percebi que talvez eu tenha implantado em mim um chip semelhante. Ando com dificuldade de viver onde de fato estou.

Há alguns meses, moro em mundos paralelos. Não precisa pensar muito para saber o motivo: a realidade está um massacre. As ruas andam estranhas e soturnas. A violência cresce de uma forma inusitada e não só nos ambientes onde há miséria. Aquele parente, conhecido ou vizinho aparentemente bem de vida, que lhe parecia pacato, de repente vira um bicho e faz uma atrocidade. Exemplos não faltam. Conheço uma menina, a princípio meiga e sorridente, que não suportou o passarinho cantando cedo na janela e resolveu tacar-lhes sapatos. Vale a metáfora, claro.

Outro dia, vi na rua em plena luz do dia uma mãe dizendo ao filho pequeno que ia encher ele de porrada se ele deixasse a tampinha da garrafa de água mineral cair no chão. A avó estava do lado e repetiu a frase – “Vai tomar porrada”.

Acompanhei em pensamento aquela família, o menino silencioso, segurando a garrafa, com medo de beber para que a tampinha não caísse. Imaginei uma história horrível: ele deixando a tampa cair e, chegando em casa, a mãe cumprindo a promessa. Bateu tanto no garoto que ele acaba não suportando e morre. Escrevi esse texto e depois me dei conta do horror que tinha escrito. Mas, pensei, o escritor respira seu tempo, esse ar poluído que respiramos, o mal-estar que tomou conta do país, toda a decadência da sociedade… As falas dos toscos estão mais toscas porque agora eles estão afinados no coro das bestas. Já perceberam como os toscos têm falado mais alto? Como atuam sem vergonha nenhuma para defender abomináveis argumentos contra o bom senso, a delicadeza e o afeto? Essa é a realidade.

Apaguei o texto porque não consegui encarar o horror. Me recolho no meu mundo paralelo desesperadamente buscando uma série que me salve. Uma série após a outra, onde tenho vivido. Os livros também são ótimos escapes, mas a imagem neste momento me captura – o chip implantado, não quero tirá-lo. Criei uma distopia.

Acho que muitas pessoas vivem momentos semelhantes atualmente. É como se a ficção fosse uma espécie de espelho-buraco-da-Alice, onde se entra para viver amplitudes diversas e novos confrontos que, por mais bizarros, violentos ou inusitados, não são reais no sentido concreto do asfalto, grama, gente, pele. São mundos paralelos que sabemos não serem reais, como o sonho ou o pesadelo. Enquanto vivo dentro deste tempo suspenso, entre um intervalo e outro, imagino como voltar a colocar os pés, e o corpo inteiro, incluindo a mente, que também é corpo, de novo na realidade. Talvez eu nunca mais volte inteiramente da forma como vivia antes.

Existe a dúvida em não ser capaz de fazer o momento inverso e sair de dentro do espelho-buraco-de-Alice. Mas como mudar a realidade se eu, assim como tantos que talvez se encontrem em posição parecida, continuar habitando os mundos paralelos? Os brutos dominarão para sempre? É preciso coragem para tirar o chip…

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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