Começar um romance

O início de um processo de erros e acertos, dúvidas e crises, dezenas ou centenas de páginas que serão jogadas fora ou reescritas
Ilustração: Miguel Rodrigues
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18/07/2021

Já me perguntaram várias vezes como se começa um romance. De onde vem a ideia? De onde surge a história? Não vou falar por outros romancistas, apenas por mim, do alto nem tão alto dos dois romances que escrevi e do terceiro, que estou escrevendo agora.

Começo respondendo que a ideia, assim, no singular, não existe. Um romance é a união de algumas ou de diversas pontas. Primeiro, surge um fato, assunto ou sensação que, traindo a natureza passageira dos pensamentos, não vai embora. Ou melhor, vai mas volta. Num certo sentido, não é o romancista que vai atrás do tema, é o tema que vai atrás do romancista, perseguindo-o até que ele se renda. E como é importante se render, porque é a partir da aceitação de uma temática — ou da relevância dela — que o escritor se abre para assuntos, elaborações e leituras correlacionados, permitindo a chegada das outras pontas que, lentamente, tecerão a ideia central.

Comigo, esse processo costuma levar quase um ano, período em que me torno um imã. Compro um caderno, com um bolso na contracapa, e já escrevo um possível nome para o romance na lombada — nomear também é uma forma de elaborar o que queremos dizer, não importa se o título será ou não usado depois. Também passo a anotar e guardar tudo o que pode ser usado e até o que nem parece útil mas me toca de alguma maneira. Há alguns anos, me intrigou a notícia de uma mulher que havia morrido deixando trezentas e poucas blusas tricotadas em verde no seu sótão. Usei essa história para caracterizar a mãe desequilibrada da narradora de Tudo pode ser roubado. Quando Suíte Tóquio ainda era uma coisa vaga, guardei uma “Autorização para viajar desacompanhada” que fiz para a minha filha, e foi essa folha que me deu a ideia de a babá fugir de ônibus com a criança.

Depois de um ano com a mente aberta, deixando tudo orbitar em torno de mim, preparo a aterrissagem. Afinal, nem todas as coisas vão entrar no romance. Como uma pedra a ser esculpida, a beleza de uma obra nasce do que é lascado fora. E a escolha do que será mantido ou dispensado não tem só a ver com gosto, mas com função: nada num romance deve ser aleatório. Para mim esse é um dos momentos mais bonitos da criação literária, porque ainda que nada seja aleatório, a escolha não é só racional.

Até semana passada, eu estava há um ano deixando meu novo romance orbitar livre em torno de mim. Gostava do tema, das cenas que imaginei. Nos últimos meses, senti que o romance queria descer. E senti porque passei a pensar nele com maior frequência, inclusive em momentos que eu não queria, como durante uma explicação importante que eu ouvia de um médico. Mas a magia precisa de condições propícias. Ir ao médico e cuidar o dia todo dos filhos não são das condições mais adequadas. Resolvi fazer uma pequena viagem, tirar uns dias para mim. E foi só eu pegar a estrada, me dar algumas horas sozinha, que o romance baixou como um Chico Xavier. Não sei como não me acidentei: via capítulos enfileirados no lugar de caminhões, sacava nomes de personagens das placas rodoviárias. Assim que cheguei ao meu destino, tracei uma estrutura, rascunhei algumas páginas e cravei a decisão que considero a mais importante nesse gênero: quem narra, e como.

Naquela noite, ao sentir meu estômago vazio rodeado por um livro vivo, concreto ainda que inconcreto, me emocionei. Não só por ter um romance (ah, o alívio do romancista quando percebe que tem um romance possível) mas, acima de tudo, por perceber o processo. Eu poderia ter viajado seis meses antes nas mesmas condições e nada aconteceria. Uma semana antes nas mesmas condições e nada aconteceria. Como diriam os permacultores, que serão personagens nessa minha nova narrativa, o tempo é do tempo, e, nesse caso, o entendimento da minha impotência junto a ele não me enfraquece: me liberta.

Se bem que impotência não é a palavra exata. Eu preparei o campo para o tempo trabalhar. Eu sigo preparando o campo para o tempo seguir trabalhando. E não vai funcionar sempre. Começar um romance é iniciar um processo de erros e acertos, dúvidas e crises, dezenas ou centenas de páginas que serão jogadas fora ou reescritas.

Por ora, tenho uma ideia de várias pontas. Uma escultura em forma muito bruta. E uma percepção cristalina: romances também são oráculos. Percebo que este que estou começando antecipou, há um ano, questões que só agora estão surgindo na minha vida. É por isso que, ainda que eu tente explicar o romance, aqui ou em qualquer outro lugar, a tentativa é meio vã: algo de sua grandeza sempre me escapa.

Giovana Madalosso

Nasceu em Curitiba (PR), em 1975. É autora de A teta racional (livro de contos finalista do Prêmio Literário Biblioteca Nacional), e dos romances Tudo pode ser roubado (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura) e Suíte Tóquio.

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