🔓 Autores de autoras

Algumas ocorrências do universo literário contemporâneo evidenciam uma situação incômoda: homens querem créditos até quando elogiam o sucesso de escritoras
Ilustração: Oliver Quinto
12/04/2022

A proposta é: vamos observar atentamente e estranhar? Porque se não houver estranhamento, até incômodo, tudo parecerá como sempre foi. Uma espécie de normalidade avizinhada da banalidade operará em nosso desfavor, como sempre tem sido. Mas talvez não mais.

Sem combinações prévias, um pequeno grupo de escritoras estabeleceu um observatório improvisado para anotar, guardar e comentar privativamente algumas ocorrências curiosas das cenas editorial e literária contemporâneas do Brasil. Geralmente, tais ocorrências são postagens em redes sociais que nos chamam a atenção e que geram um debate tão bem-humorado quanto contundente entre nós. E o assunto agora é: “Eles, os autores das autoras”.

Eclosão
De alguns anos para cá, as escritoras vêm arrebatando muitos prêmios grandes, visíveis, inclusive ganhando dinheiro por isso. Também vêm frequentando as listas de obras mais vendidas em sites especializados, jornais e blogs de livrarias. As escritoras, de todas as idades, vêm disputando finais de prêmios de livros inéditos e éditos, o que as coloca por alguns dias (às vezes minutos) em evidência, ao menos na bolha dos leitores e das leitoras de literatura do tempo presente, muito raramente além disso.

Essas escritoras nem sempre são as mesmas. Embora houvesse certa tendência de repetição no meio, há alguns anos que nomes novos aparecem, assim como somem, mas às vezes se estabelecem. À diferença de outros tempos, também anda mais comum que editoras pequenas, ditas independentes, arrebatem os tais prêmios juntamente com as autoras, pode ser até que tendo à frente da marca/do selo uma mulher que edita — e bem.

Interessadamente, um pequeno grupo de escritoras, nem sempre essas felizardas, mas certamente conhecidas umas das outras, temos observado esse sobe e desce, esse vai e vem, esse somatório numa lista que só se expande, formando um elenco de pessoas que escrevem e que ganham alguma visibilidade ao longo do ano, em especial quando editoras anunciam suas coleções e lançamentos próximos ou quando os prêmios divulgam, com algum estardalhaço, seus resultados. É preciso aproveitar bem, pois são apenas minutos, horas de alguma glória. Não mais.

Reivindicações e apropriações
Seguindo-se a isso, a essa lista espalhada e repetida de uns jornais maiores a outros menores, começa a acontecer o tal fenômeno que vem nos intrigando: a reivindicação, menos ou mais explícita, da autoria ou da responsabilidade de um homem pelo sucesso relativo de uma mulher. Digo mais: causa estranhamento, mas vem, principalmente, nos incomodando. E nos incomoda também pensar que essas autoras não percebam ou não se sintam incomodadas.

Nos últimos meses, coletamos alguns textos de homens, geralmente também escritores, que se adiantam logo em publicar algo nas redes sociais assim que sai um resultado de prêmio, dizendo assim, com a licença das paráfrases: aquela gênia que ali se revela foi, antes, revelada ou mesmo criada por ele; aquela obra, agora descoberta, foi, antes, sugerida ou corrigida por ele; que aquela autora, que agora se mostra, passou, antes, por um curso todinho ministrado por ele, que teve a paciência de ler e reler os escritos imaturos da jovem promissora; que aquele romance, agora finalmente eclodido num mercado saturado, foi, antes, lido e comentado por ele, que deu as diretrizes e cedeu seus segredos para que aquela autora de romance pudesse existir; que aquela autora, que agora sai das sombras, é mentorada ou assessorada ou agenciada, mesmo que de maneira informal, por ele; enfim… segue por aí e é possível ampliar esta lista.

Histórico reverso
Não é de hoje que obras de autoria de mulheres precisam existir sob o aval de escritores, seja na composição mesma do livro, isto é, nos paratextos (orelhas, prefácios, posfácios, eufácios, blurbs, etc.), seja depois, na camaradagem crítica que permite a uma autora aparecer com seu romance, seu poemário ou seu livro de contos. Há exemplares muito curiosos e estudáveis nesse sentido, até quando a autora é declaradamente feminista e relativamente atenta às questões do campo. Há livros fortemente emoldurados por um aparato crítico cheio de testosterona e, em alguns casos, isso surte bom efeito, mesmo hoje.

Mas a ocorrência dessas reivindicações de autoria da autora são, para nosso pequeno grupo de observadoras, um tipo mais recente e irritante de “violência editorial de gênero”, na expressão da poeta e romancista Micheliny Verunschk (que nada tem a ver com nosso grupinho, mas nos serve de inspiração). As redes sociais, ou seja, nosso ambiente sociotécnico presente, têm forte relação com isso, já que é aí que os escritores (e/ou críticos, professores de escrita criativa, jornalistas, editores, etc.) explicitam sua sanha de que seus próprios méritos sejam reconhecidos no amálgama meio intruso que permite a uma mulher tornar-se não apenas uma escritora, mas uma autora premiada e relativamente reconhecida. Nunca se sabe se ela terá espaço midiático por um ou dois dias; ou se isso será mais duradouro; se aquele livro galgará o catálogo de uma editora maior e/ou mais poderosa; se sua obra se tornará um best-seller; se virará série ou filme; se ela deixará passar a chance de publicar o nome dele nos agradecimentos, na dedicatória ou mesmo citá-lo para sempre nas entrevistas eventualmente por vir. Também não se sabe se será fogo de palha, mas é melhor dizer logo: tem meu dedo aí. (Evitei aqui uma expressão mais apropriada, mas também mais chula, dado que o membro pode ser outro.)

Nosso grupo de observadoras tentou encontrar mulheres que façam esse tipo de reivindicação de autoria do autor. É claro que há profusão de exemplos, na história da literatura e da edição, de escritores que foram francamente sustentados por suas companheiras, desde a revisão e mesmo a datilografia dos textos até o comentário e mesmo a edição do livro, sem esquecer da comidinha feita e da limpeza da casa, enquanto eles genialmente criavam. Há alguns livros de entrevistas com mulheres de escritores no mundo, embora no Brasil… sejam escassos ou inexistentes. Há filmes que demonstram esse “apoio”, raramente reconhecido ou explicitado. Digamos que as mulheres não tenham tido a oportunidade de reivindicar parte da autoria da genialidade deles, aqui e ali. Já o contrário… vem nos divertindo e irritando bastante, nos últimos anos.

Organizando a bagunça
Para terminar esta crônica, que já vai grande, mas não o assunto, que ainda rende muito, lembro que Micheliny Verunschk, autora de poemários e romances premiados e lançados por editoras de todo porte, elencou, uns anos atrás, uma lista de 11 pontos da “violência editorial de gênero”, proposição por aperfeiçoar. Não sei se houve sequência, mas os fatos continuam dando ensejo a listas como a dela, que consideravam outros tipos de comportamento machista, tais como: o assédio oportunista deles sobre elas, quando elas se estabelecem escritoras; assim como a fragilização ou intimidação delas, quando eles são estabelecidos como escritores; ridicularização, apagamento, minimização dos talentos delas, em especial publicamente, mas também de forma velada ou nos bastidores da cena; inviabilização de publicações de autoria de mulheres, considerando também curadorias; priorização de aspectos como beleza, juventude e cor da pele (sempre em favor das mais jovens, mais brancas, etc.); intervenção nas obras ou nas performances delas sob exigências indignas ou violentas; entre outros itens.

Na Argentina, cena na qual a discussão é forte e mais organizada do que no Brasil, o coletivo Nosotras proponemos literatura, uma “Assembleia permanente de trabalhadoras feministas do campo cultural, literário e intelectual”, listou 10 pontos para “um compromisso ético e solidário em busca da igualdade de espaços, visibilidade e valorização da mulher no campo cultural, literário e intelectual”. É um documento que pode ser lido, estudado e discutido, além de inspirar nosso contexto e nossas atitudes no Brasil, sem esquecer de explicitar que as “condutas patriarcais e machistas” não são reproduzidas apenas pelos homens, mas também pelas próprias mulheres. Frise-se essa última afirmação/constatação.

Pois bem, essas tais condutas têm a ver com valorizar o trabalho de uma mulher inclusive no respeito ao seu processo de criação e publicação, visibilização e ascensão, quando for o caso, inclusive sem vestir tudo com um verniz de “admiração” ou “alegria solidária”. Atentemo-nos: hoje em dia, eles quase nunca são tão explícitos e violentos (já foram, muito, em correspondência publicada e arquivada país afora); podem parecer simpáticos, empáticos e até empolgados, mas é preciso ler e reler, pensar, estranhar. Sim, claro, um homem pode ser de fato um leitor crítico, um colaborador efetivo, um companheiro de vida e participar da rotina criativa de uma escritora, obviamente, mas não é disso que estamos falando. A questão é quando sentimos uma extrapolação, uma pressa em chamar atenção mais do que ela, seu prêmio e sua obra, e até certa insegurança dos que não se contêm e quase atribuem a si mesmos o nascimento dos talentos de uma autora; ela, quase uma excrescência. Os exemplos são muitos, são públicos e muitas de nós, com pouco esforço, podemos nos lembrar daquele sumidão que apareceu rapidinho no dia do resultado dos/as finalistas de um prêmio para dizer: eu li primeiro, fui eu que revelei essa garota, foi minha aluna, olha ela aí, o que seria dela sem mim… Chega, né, gente? Vamos deixar as minas fazerem sucesso solo?

Agora, uma listinha mínima, a aperfeiçoar

Se ela, por exemplo, foi finalista ou ganhou um prêmio bacana:

1. deixe-a anunciar primeiro e do jeito que ela quiser, em especial nas redes sociais;

2. depois que ela anunciar, seja honesto nos seus parabéns, mas não brilhe mais do que ela;

3. abstenha-se de comentar como o talento dela depende da sua existência;

4. não cobre, nem sutilmente, agradecimentos e vênias pela eventual participação no projeto dela;

5. fique quieto se não for para ser justo, honesto e sensível ao sucesso da autora e da obra, seja lá que relação vocês tenham.

Ana Elisa Ribeiro

Nasceu em Belo Horizonte (MG), em 1975. É autora de livros de poesia, conto e crônica, infantis e juvenis, tendo estreado com um volume de poemas em 1997. Teve colunas fixas em algumas revistas desde 2003 e publicou quatro livros de crônicas reunidas: Chicletes, Lambidinha & outras crônicas (Escribas, 2012), Meus segredos com Capitu (Escribas, 2013, semifinalista Portugal Telecom), Doida pra escrever (Moinhos, 2021) e Nossa língua & outras encrencas (Parábola, 2023). É professora da rede federal de ensino e pesquisadora das mulheres na edição.

Rascunho