A história de um poema

A viagem de um poeta entusiasmado e um cineasta de gestos lentos em busca de um grande piso de azulejos com pétalas de rosas pintadas
Detalhe do piso de azulejos com pétalas de rosas pintadas por Filippo Palizzi
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08/05/2021

Para Susana Fuentes, de tantas e tão boas histórias

Era o ano de 1982. Andrei e Tonino, amigos e parceiros de trabalho, viajavam pela Itália se demorando nos vilarejos. Andrei, com seu jeito lento e sua alma russa, vai observando as coisas como se através delas, tudo nele é pensativo, inclusive seu bigode, enquanto Tonino, italianíssimo em seu entusiasmo e suas frustrações, não para nem se cala, a toda hora planejando, roteirizando, levando o amigo a ver esplendores escondidos em mosteiros, pátios brancos de sol com vento, igrejas, horizontes.

Numa tarde quente, os amigos se sentam ao ar livre e devoram uma macarronada, depois afundam as bocas em frescas fatias de melancia, e é aquela centelha totalmente espontânea de felicidade. Andrei pensa em perspectivas e proporções, Tonino o atiça com perguntas e lembranças. Assim, conversando infinitamente, estão trabalhando. Até que, a certa altura da viagem, eles chegam aos jardins de uma mansão do século 19.

Haviam chegado até ali, em Sorrento, por causa daquela mansão, ou, mais precisamente, por causa de uma obra de arte existente numa das salas daquela mansão. Um grande piso de azulejos com pétalas de rosas pintadas por Filippo Palizzi. Tonino precisava muito de ver com os próprios olhos aquele piso, que só conhecia por foto, e também de o mostrar ao amigo, por isso enceta conversa com o secretário da propriedade. O homem confirma a existência do piso, único no mundo. Mas não, eles não podem ver aquela beleza com os próprios olhos. Estava ausente a proprietária daquele luxo todo e o homem não havia conseguido contatá-la.

Tonino não se conforma, o poeta nele está irremediavelmente revoltado. Pretendia convencer o distinto secretário com seu autêntico entusiasmo. Como se o vento tivesse soprado pela janela pétalas de rosas, aleatoriamente, por quinze metros de chão… algo assim extraordinário… Andrei mal murmura, o cabelo lhe tapando a cara, parece que o bigode lhe cresce de repente, ele prefere usar os olhos. “Não seria maravilhoso ver esse piso?”, Tonino insiste. Mais que constrangido, o secretário tenta manter o sorriso, está sendo filmado e isso visivelmente o desagrada.

Alguém poderia sonhar que, uma vez desligada a câmera, o homem tivesse ousado quebrar os protocolos e conduzido Andrei e Tonino até o chão de pétalas de rosas, num ato clandestino de beleza compartilhada. Pobre encargo de ser quem proíbe a um poeta e um cineasta a simples maravilha de ver uma obra de arte…

O que se sabe, ou o que sei, é que, passados mais de trinta anos desse episódio, uma menina encontrou na mesa de uma sala um vaso rodeado de pétalas de rosas recém-caídas, e que essa menina tomou as pétalas uma a uma nas mãos em concha, e uma a uma as foi deixando tombar no chão, num gesto simples e completo, sem nunca ter ouvido falar em Andrei Tarkovski, Tonino Guerra ou Filippo Pallizzi.

Mariana Ianelli

Nasceu em São Paulo em 1979. Formada em jornalismo, mestre em literatura e crítica literária, estreou na poesia em 1999 com Trajetória de antes. Em 2013, estreou na crônica com Breves anotações sobre um tigre. É também autora de dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no Rascunho. Escreve quinzenalmente, aos sábados, na revista digital de crônicas Rubem.

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