Poemas de Robert Pinsky

Leia os poemas traduzidos "Soneto", "ABC","Tempo na casa", "Primeiras madrugadas juntos", "Chuva em Jersey", "Morrer", "Poema sobre pessoas"
Robert Pinsky, poeta americano
10/07/2015

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Sonnet

Afternoon sun on her back,
calm irregular slap
of water against a dock.

Thin planes clamber
over the hill’s top —
nothing to remember,

only the same lake
making the same
sounds under her cheek

and flashing the same color.
No one to say her name,
no need, no one to praise her,

only the lake’s voice — over
and over, to keep it before her.

Soneto

O sol da tarde nas costas dela,
a batida irregular e calma
da água contra o cais.

Pequenos aviões sobem
pelo topo da colina —
nada a recordar,

apenas o mesmo lago
fazendo os mesmos
sons sob a bochecha dela

e refletindo a mesma cor.
Ninguém para dizer seu nome,
nenhum desejo, ninguém para louvá-la,

apenas a voz do lago — mais
e mais, para segurar aquilo diante dela.

…..

ABC

Anybody can die, evidently. Few
Go happily, irradiating joy,

Knowledge, love. Many
Need oblivion, painkillers,
Quickest respite.

Sweet time unafflicted,
Various world:

X = your zenith.

ABC

Qualquer um pode morrer, evidentemente. Poucos
Vão alegremente, irradiando felicidade,

Sabedoria, amor. Muitos
Precisam de inconsciência, de analgésicos,
A mais rápida interrupção.

Tempo doce, sem aflições,
Variado mundo:

X = teu zênite.

…..

House hour

Now the pale honey of a kitchen light
Burns at an upstairs window, the sash a cross
Milky daylight moon,
Sky scored by phone lines. Houses in rows
Patient as cows.

Dormers and gables of an immigrant street
In a small city, the wind-worn afternoon
Shading into night.

Hundreds of times before
I have felt in some district
Of shingle and downspout at just this hour.
The renter walking home from the bus
Carrying a crisp bag. Maybe a store
Visible at the corner, neon at dusk.
Macaroni mist on the glass.

Unwilled, seductive as music, brief
As dusk itself, the forgotten mirror
Brushed for dozen of years
By the same gray light, the same shadows
Of soffit and beam end, a reef
Of old snow glowing along the walk.

If I am hollow, or if I am heavy with longing, the same:
The ponderous houses of siding,
Fir framing, horsehair plaster, fired bricks
In a certain light, changing nothing, but touching
Those separate hours of the past
And now at this one time
Of day touching this one, last spokes
Of light silvering the attic dust.

Tempo na casa

Agora o mel pálido da luz da cozinha
Arde na janela lá de cima, o caixilho, uma cruz
Lua cor de leite, clara
Céu sustentado por fios telefônicos. Casas enfileiradas
Resignadas como vacas.

Janelas altas, casas verticais da rua de imigrantes
Numa cidadezinha, e a tarde de vento exaurido
Levando a sombra para dentro da noite.

Centenas de vezes antes
Eu me senti em algum bairro
De telhas de madeira e calhas, bem nesta hora.
O locatário indo a pé, do ônibus para casa
Carregando uma sacola nova. Talvez uma loja
Visível na esquina, o neon ao anoitecer.
E o vapor de macarrão no vidro da janela.

Inacabado, sedutor como música, fugaz
Como é o anoitecer, o espelho esquecido
Escovado por dúzias de anos
Sob a mesma pálida luz, as mesmas sombras
De beirais e vigas, e um rochedo
De neve endurecida, brilhando pelo passeio.

Se estou oco, ou estou pesado de saudade, dá no mesmo:
As pesadas casas com tapumes,
Estruturas de pinus, velhos rebocos, tijolos queimados
Sob certa luz, nada mudando, mas tocando
Aquelas horas separadas do passado
E agora, bem nesta hora
Do dia tateando aqui, o último raio
De luz, prateando a poeira do sótão.

…..

First early mornings together

Waking up over the candy store together
We hear the birds waking up below the still
And slowly recognize ourselves, the weather,
The time, and the birds that rustle there until

Down to the street as fog and silence lift
The pigeons from the wrinkled awning flutter
To reconnoiter, mutter, stare and shift
Pecking by ones or twos the rainbowed gutter.

Primeiras madrugadas juntos

Despertando juntos sobre a loja de doces, nós
Ouvimos os passarinhos despertando na soleira
E aos poucos vamos reconhecendo a nós, e o clima,
O tempo, e os pássaros que farfalham ali, até

Lá embaixo, na rua, enquanto sobem a névoa e o silêncio
Os pombos dos toldos enrugados batem as asas
Para reconhecer, grunhir, encarar e girar
Ciscando sozinhos ou em pares na calçada de arco-íris.

…..

Jersey rain

Now near the end of the middle stretch of road
What have I learned? Some earthly wiles. An art.
That often I cannot tell good fortune from bad,
That once had seemed so easy to tell apart.

The source of art and woe aslant in wind
Dissolves or nourishes everything it touches.
What roadbank gullies and ruts it doesn’t mend
It carves the deeper, boiling tawny in ditches.

It spends itself regardless into the ocean.
It stains and scours and makes things dark or bright:
Sweat of the moon, a shroud of benediction,
The chilly liquefaction of day to night,

The Jersey rain, my rain, soaks all as one:
It smites Metuchen, Rahway, Saddle River,
Fair Haven, Newark, Little Silver, Bayonne.
I feel it churning even in fair weather

To craze distinction, dry the same as wet.
In ripples of heat the August drought still feeds
Vapors in the sky that swell to drench my state—
The Jersey rain, my rain, in streams and beads

Of indissoluble grudge and aspiration:
Original milk, replenisher of grief,
Descending destroyer, arrowed source of passion,
Silver and black, executioner, font of life.

Chuva em Jersey

E agora, chegando ao fim da metade da estrada
O que eu aprendi? Algumas malícias. Uma arte.
E que eu com frequência não consigo diferenciar sorte de azar,
Que um dia pareceram tão fáceis de distinguir.

A fonte da arte e da angústia enviesada no vento
Dissolve ou acalenta tudo o que toca.
Que barrancos e valas, na estrada, ela não conserta,
Escavando as valas mais fundas, quentes e cor-de-areia.

Ela se deixa ir, descuidada, para o mar.
Ela se desbota e se esfrega, deixando as coisas sombrias ou claras:
A transpiração da lua, abrigo abençoado,
A fria liquefação do dia em noite,

A chuva de Jersey, minha chuva, que lava tudo e todos:
Que castiga Metuchen, Rahway, Saddle River,
Fair Haven, Newark, Little Silver, Bayonne.
Eu a sinto rolando mesmo no tempo bom

Para a insana distinção, o seco igual ao molhado.
Em ondas de calor, a seca de agosto segue nutrindo
Vapores no céu que ondulam, para encharcar minha terra—
A chuva de Jersey, minha chuva, em fluxos e gotas

De indissolúveis ressentimento e anseio:
Leite primitivo: provedora da tristeza,
Destruidora que cai, causa pontiaguda de paixão,
Prata e negra, carrasca, fonte de vida.

…..

Dying

Nothing to be said about it, and everything —
The change of changes, closer or farther away:
The Golden Retriever next door, Gussie, is dead,

Like Sandy, the Cocker Spaniel from three doors down
Who died when I was small; and every day
Things that were in my memory fade and die.

Phrases die out: first, everyone forgets
What doornails are; then after certain decades
As a dead metaphor, “dead as a doornail” flickers

And fades away. But someone I know is dying —
And though one might say glibly, “everyone is,”
The different pace makes the difference absolute.

The tiny invisible spores in the air we breathe,
That settle harmlessly on our drinking water
And on our skin, happen to come together

With certain conditions on the forest floor,
Or even a shady corner of the lawn —
And overnight the fleshy, pale stalks gather,

The colorless growth without a leaf of flower;
And around the stalks, the summer grass keeps growing
With steady pressure, like the insistent whiskers

That grow between shaves on a face, the nails
Growing and dying from the toes and fingers
At their own humble pace, oblivious

As the nerveless moths, that live their night or two —
Though like a moth a bright soul keeps on beating,
Bored and impatient in the monster’s mouth.

Morrer

Nada a dizer a respeito disso, e tudo —
A mudança das mudanças, perto ou longe:
O Golden Retriever da casa ao lado, o Gussie, está morto.

Como a Sandy, a Cocker Spaniel de três casas abaixo
Que morreu quando eu era pequeno; e todos os dias
Coisas que estavam na minha memória se dissolvem e morrem.

Frases morrem: primeiro, todo o mundo esquece
O que são tachões de porta; e então após algumas décadas
Como uma metáfora que morre, “morto como um tachão”, cintila

E se extingue. Mas alguém que eu conheço está morrendo —
E apesar de que se pode dizer, superficialmente, que “todo mundo está”,
O ritmo diferente torna a diferença absoluta.

Os invisíveis e minúsculos esporos, no ar que respiramos,
Que pousam, sem causar danos, na água que bebemos
E em nossa pele, costumam surgir a partir

De certas condições do solo da floresta,
Ou mesmo de um sombreado canto do quintal —
E à noite, o grosso e pálido caule recobra

Seu incolor crescimento, sem folha ou flor;
E ao redor dos caules, a grama de verão segue crescendo
Com insistente pressão, como os insistentes pelos

Que crescem, entre as escanhoadas num rosto, e as unhas
Crescendo e morrendo nos dedos dos pés e das mãos
Nos seus próprios e humildes ritmos, alheios

Como as confiantes mariposas, que vivem uma ou duas noites —
Embora, como uma mariposa, uma alma iluminada siga pulsando,
Entediada e impaciente, na boca do monstro.

…..

Poem about people

The jaunty crop-haired graying
Women in grocery stores,
Their clothes boyish and neat,
New mittens or clean sneakers,

Clean hands, hips not bad still,
Buying ice cream, steaks, soda,
Fresh melons and soap — or the big
Balding young men in work shoes

And green work pants, beer belly
And white T-shirt, the porky walk
Back to the truck, polite; possible
To feel briefly like Jesus,

A gust of diffuse tenderness
Crossing the dark spaces
To where the dry self burrows
Or nests, something that stirs,

Watching the kinds of people
On the street for a while —
But how love falters and flags
When anyone’s difficult eyes come

Into focus, terrible gaze of a unique
Soul, its need unlovable: my friend
In his divorced schoolteacher
Apartment, his own unsuspected

Paintings hung everywhere,
Which his wife kept in a closet —
Not, he says, that she wasn’t
Perfectly right; or me, mis-hearing

My rock radio sing my self-pity:
“The Angels Wished Him Dead” — all
The hideous, sudden stare of self,
Soul showing through like the lizard

Ancestry showing in the frontal gaze
Of a robin busy on the lawn.
In the movies, when the sensitive
Young Jewish soldier nearly drowns

Trying to rescue the thrashing
Anti-Semitic bully, swimming across

The river raked by nazi fire,
The awful part is the part truth:

Hate my whole kind, but me,
Love me for myself. The weather

Changes in the black of night,
And the dream-wind, bowing across

The sopping open spaces
Of roads, golf courses, parking lots,
Flails a commotion
In the dripping treetops,

Tries a half-rotten shingle
Or a down-hung branch, and we
All dream it, the dark wind crossing
The wide space between us.

Poema sobre pessoas

O confiante e cultivado cabelo grisalhando
Mulheres nas mercearias,
Suas roupas, masculinas e limpas,
Luvas novas ou tênis limpos

Mãos limpas, quadris ainda razoáveis,
Comprando sorvete, bifes, refrigerante,
Melões frescos e sopa — ou o grande
Jovem ficando careca com sapatos sociais

E enormes calças verdes, barriga de cerveja
E camiseta branca, o caminhar de obeso
De volta à camionete, educado; possivelmente
Se sentir brevemente como Jesus,

Uma rajada de difusa doçura
Atravessando os espaços escuros
Para onde o seco ser se oculta
Ou aninha, algo que desperta,

Observando o tipo de pessoa
Na rua, por um tempo —
Mas como o amor fraqueja e sinaliza
Quando os olhos complicados de alguém são

Focados, o terrível encarar de uma alma
Única, seu desejo não amado: meu amigo
Em seu apartamento de professor de
Secundário divorciado, suas próprias e insuspeitas

Pinturas dependuradas por todos os lados,
Que sua esposa mantinha num armário —
Não, ele diz, que ela não estivesse
Perfeitamente certa; ou eu, mal ouvindo

Minha rádio de rock cantar a minha autocomiseração:
“Os anjos o queriam morto” — todo
O horrível, inesperado encarar do ser,
A alma se mostrando como a ancestralidade

Do lagarto se mostrando no olhar direto
De um tordo ocupado, no quintal.
Nos filmes, quando o sensível e
Jovem soldado judeu, quase se afoga

Tentando resgatar o antissemita nojento e
Valentão, nadando através de
Um rio varrido por fogo nazista,
A parte horrível é a verdadeira parte:

Odeie todos os meus, mas a mim,
Ame-me por mim mesmo. O clima
Muda no negro da noite,
E o vento de sonhos, se curvando

Através dos espaços abertos das
Estradas, campos de golfe e estacionamentos
Desencadeia uma comoção
Nos topos das árvores que gotejam,

Pondo à prova uma telha meio quebrada
Ou um galho baixo inclinado, e nós
Todos sonhamos isso, o vento escuro atravessando
O amplo espaço que há entre nós.

…..

Immature song

I have heard that adolescence is a recent invention,
A by-product of progress, one of Capitalism’s

Suspended transitions between one state and another,
Like refugee camps, internment camps, like the Fields

Of concentration in a campus catalogue. Summer
Camps for teenagers. When I was quite young

My miscomprehension was that “Concentration Camp”
Meant where the scorned were admonished to concentrate,

Humiliated: forbidden to let the mind wander away.
“Concentration” seemed just the kind of punitive euphemism

The adult world used to coerce, like the word “Citizenship”
On the report cards, graded along with disciplines like History,

English, mathematics. Citizenship was a field or
Discipline in which for certain years I was awarded every

Marking period a “D” meaning Poor. Possibly my first political
Emotion was wishing they could call it Conduct, or Deportment.

The indefinitely suspended transition of the refugee camps
Must be a poor kind of refuge — subjected to capricious

Kindness and requirements and brutality, the unchampioned
Refugees kept between childhood and adulthood, having neither.

In the Holy Land for example, or in Mother Africa.
At that same time of my life when I heard the abbreviation

“DP” for Displaced Person I somehow mixed it up with
“DTs” for Delirium Tremens, both a kind of stumbling called

By a childish nickname. And you my poem, you are like
An adolescent: confused, awkward, self-preoccupied, vaguely

Rebellious in a way that lacks practical focus, moving without
Discipline from thing to thing. Do you disrespect Authority merely

Because it speaks so badly, because it deploys the lethal bromides
With a clumsy conviction that offends your delicate senses? — but if

Called on to argue such matters as the refugees you mumble and
Stammer, poor citizen, you get sullen, you sight and you look away.

Canção imatura

Eu ouvi falar que a adolescência é uma invenção recente,
Um subproduto do progresso, uma das transições

Suspensas do Capitalismo entre uma situação e outra,
Como os campos de refugiados, campos de internação, como as

Áreas de concentração na lista de cursos das faculdades. Colônias
De férias para adolescentes. Quando eu era bem jovem

Meu equívoco era pensar que “Campo de Concentração”
Significava o lugar onde os rejeitados eram obrigados a se concentrar,

Humilhados: proibidos de deixar suas mentes viajar livremente.
“Concentração” significando apenas um tipo de eufemismo para punição

Que o mundo adulto usava como coação, como a palavra “Cidadania”
Nos boletins escolares, listada junto a disciplinas como História,

Inglês, Matemática. Cidadania era uma área, ou
Disciplina na qual por alguns anos eu era premiado a cada

Ciclo com um “D”, que significava “fraco”. Possivelmente minha primeira emoção
Política foi desejar que eles pudessem chamar aquilo de Condução, ou Deportação.

A indefinida e transitória suspensão dos campos de refugiados
Só pode ser um péssimo tipo de refúgio — sujeito aos caprichos de

Bondade e requisições e brutalidade, os desprezados
Refugiados vivem entre a infância e a idade adulta, sem ser nenhuma.

Na Terra Santa, por exemplo, ou na Mãe África.
Na mesma época da minha vida em que eu ouvi a abreviação

“PD”, para Pessoa Deslocada, eu de alguma maneira misturei isso com
“DT”, para Delirium Tremens, ambas moléstias conhecidas

Por um apelido infantilizado. E você, meu poema, você é como
Um adolescente: confuso, esquisito, autocentrado, vagamente

Rebelde, de um jeito que dispensa objetivos práticos, se movendo sem
Disciplina, de uma coisa a outra. Você não respeita as autoridades apenas

Porque elas se expressam mal, porque elas descarregam os letais brometos
Com uma desajeitada convicção, que ofende seus delicados sentidos? — mas, se

Convocado a debater temas tais como o dos refugiados, você resmunga e
Gagueja, pobre cidadão, você se cala, você apenas observa e desvia os olhos.

Robert Pinsky
Nascido em 1940 em Nova Jersey, Robert Pinsky é, apesar do nariz torcido de Perloff, um dos grandes nomes da atual poesia norte-americana. Ele sempre defendeu uma poesia que respira o ar das ruas, que é parte do cotidiano e que transpira as questões (políticas, sociais, ideológicas…) do momento. E, passando ao largo de obscurantismos, Pinsky busca escrever versos que se comuniquem com clareza, ainda que deixem aberturas para que as pessoas se apossem dos poemas: para o poeta, o repertório de cada leitor é algo que, explicitamente, deve fazer parte do significado da obra (se você tiver curiosidade, a visão de Pinsky a respeito da teoria do poema estão no ensaio The sounds of poetry: a brief guide. Farrar Strauss and Giroux, New York, 1998).
André Caramuru Aubert

Nasceu em 1961, São Paulo (SP). É historiador formado pela USP, editor, tradutor e escritor. Autor de Outubro/DezembroA vida nas montanhas e Cemitérios, entre outros.

Rascunho