Poemas de Iolanda Costa

Leia os poemas "big bang day ", "subtraído da ausência e do acordo" e "lábaro"
Iolanda Costa, autora de “Cinema: sedução, lazer e entretenimento”
01/03/2021

big bang day 

quando os meteoritos se despencaram em cima da santa filomena pernambucana
ela não propagou o som de pancada seca como sinal de cura. reteve a flor, o sertão exalado do lírio, a queda dos condritos. nebulosos rochosos que nunca chegariam a planeta. tentativa prota vesta ceres de um big bang day de carteiras-cratera verdesamarelas. sobra malograda que apedreja a terra, esse erro. e erra o alvo, a calva, a alvorada. a fera, o faro, a cabeça do naro e sua cara de duzentos lobos.

subtraído da ausência e do acordo

teu coração de exíguo
e desmedido amor
erra a porta, a casa
a distância incorpórea
dos nossos endereços
a curva da saturnino
virando à esquerda.

espera o equinócio, a flor
a noite extenuada do dia
o dia declinado da sombra
o sol solfejado da clave
enquanto escreve a pauta
a nota, ou troca a quinta
ou quarta corda do violão.

lê sêneca, o eliot
o idílio, a ilíada e cãibra.
e quase nunca sublinha
as cartas, as sumas
os trechos devotados
dos que se amam em demasia
e se arremessam.

lábaro

henrietta leavitt, tu ririas
se tivesses que calcular
as mais de duas dúzias
das estrelas nebulosas
figuradas na bandeira
do solo de marcelo gleiser.

distanciam-se pelas pontas
em selfie-Céus desiguais
e constelações vexatórias
de cruzeiros e escorpiões.
acima, a sigma do octante
em sigmas.

o excesso de somas.
a esfera atravessada
por uma zona branca
em sentido oblíquo e descendente
da esquerda para a direita,
da ordem ao dolo.

geometria troncho-federativa.
abaixo da esfera, a pátria, a raxa:
a mulher é um losango amarelo
distendido (como quando queremos,
através das mãos, demonstrar
o desenho do seu sexo).

não ririas, henrietta, das tuas
hidrogenadas, ao vê-las, anãs,
caídas ao óleo ou à lama,
lacrimando a pimenta, o brometo
de benzila, o céu em fogo, desazulado,
dos deuses da goiabeira.

Iolanda Costa

Nasceu em Itabuna (BA). É autora de Cinema: sedução, lazer e entretenimento (2000), Poemas sem nenhum cuidado (2004), Amarelo por dentro (2009), Filosofia líquida (2012) e Colar de absinto (2017). Coordena a Coleção de plaquetes Pedra palavra (2012-2020).

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