Viagem sem fim

"Poltrona 27" coloca o protagonista e o leitor na estrada mas não sabe como fazê-los chegar ao ponto final
Carlos Herculano Lopes, autor de “Poltrona 27”
01/07/2011

Viagem implica em mudança. Mesmo que seja uma viagem de ida e volta, quando ela termina tudo estará modificado, nada é igual ao que era. Portanto, quando embarcamos em um avião, um navio, um ônibus, um automóvel, seja lá qual o veículo utilizado, espera-se que algo tenha mudado ao fim dessa viagem. Por isso, ao colocarmos as mãos em Poltrona 27, trabalho mais recente do autor mineiro Carlos Herculano Lopes, esperamos que alguma transformação aconteça, seja no leitor — pois afinal ler também é uma viagem — seja no protagonista do romance. Quando isso não acontece, nos sentimos um pouco decepcionados com o resultado. E é isso que ocorre ao fim de Poltrona 27.

Seu protagonista é Carlinhos, mineiro natural de Santa Marta, cidade no norte do estado, que agora vive em Belo Horizonte, mas viaja pelo menos uma vez por mês para sua terra natal, onde assumiu como desafio tocar a propriedade rural de sua família. Para fazer essas viagens, Carlinhos vai de ônibus e, por alguma superstição pessoal, prefere sempre viajar na poltrona 27. E é a história de algumas de suas viagens, a história de várias pessoas que ele encontra ao longo de suas viagens e da recuperação do sítio, entremeadas pelas lembranças pessoais do protagonista, que fazem o enredo de Poltrona 27.

Ao longo dos 37 capítulos do livro, Lopes passeia pelas vidas de pessoas comuns que, olhadas de perto, não são nada comuns. Há os motoristas Ailton, Amaral e José Carlos. Há um que conta sua tentativa de entrar ilegalmente nos Estados Unidos pela fronteira do México e dos maus-tratos que sofre quando é descoberto. Há o pianista alemão Fred, que ensinou piano para as filhas da alta sociedade da região, que todos julgavam um artista mas que era um foragido de seu país. Há a garçonete Jacira, que trabalha na rodoviária de Belo Horizonte e nunca deixa de ter esperança de uma vida melhor. Há muitos personagens, cada um com uma história de vida para lá de interessante e que estão vivos por aí, com outros nomes e outras histórias, mas todos muito reais.

Esse é um mérito de Lopes, não sabemos se os personagens são fictícios ou reais, pois as vidas narradas por ele são todas muito realistas. No posfácio escrito por Silviano Santiago, o livro “pode ser enquadrado na categoria da literatura do eu, cujo último rebento é o subgênero definido pelos teóricos franceses como autoficção. Nem autobiografia nem romance, os dois gêneros ao mesmo tempo, Poltrona 27 se apresenta como fabulação híbrida”. Ou seja, pode ser que o livro seja escrito tendo como ponto de partida as experiências pessoais de Lopes, de sua vida e das pessoas que encontrou ao longo do caminho (até certo ponto, qual romance não tem como ponto de partida a vida de seu autor?), ou pode ser que o livro seja completamente imaginário, a expressão de um universo criado na cabeça do escritor, que tem muitas similaridades com esse mundo mas que não o é. Seja qual for a resposta, pouco importa. As vidas de Poltrona 27 podem muito bem ser verdadeiras, e ficamos contentes de conhecê-las.

Mas há um porém no romance de Lopes. Apesar de ele ser bom de ler, de prender a atenção e fazer com que o leitor queira acompanhar Carlinhos ao longo de suas idas e vindas, uma vez terminado o livro não se entende direito onde todos chegaram. Carlinhos volta a Belo Horizonte dizendo:

Eu que amanhã — pois escolhi o risco de viver entre dois mundos — estarei de novo na estrada, de volta para Belo Horizonte, já que, na segunda-feira cedo, se Deus quiser, começo mais uma jornada de trabalho, até retornar outra vez a Santa Marta, se possível, na poltrona 27.

Não há um fim no livro, não sabemos se Carlinhos chegou a algum lugar ou não, seja fisicamente ou psicologicamente falando. Há um processo em andamento, isso é certo. A fazenda prospera, o pai do protagonista já faleceu, a mãe e as irmãs estão vivas, ele continua entre os dois mundos, como ele mesmo diz, tudo prossegue. Mas o que mudou em Carlinhos desde que embarcamos com ele na poltrona 28? Não sabemos. E o que mudou em nós ao fim da viagem? Também não sabemos. É essa sensação de incompletude que acomete o leitor ao fim da viagem, ou melhor, na última parada descrita por Lopes. Como narrativa, Poltrona 27 é um passatempo prazeroso. Mas assim que viramos para o lado, a vida continua e quase nada levamos dessa viagem.

Poltrona 27
Carlos Herculano Lopes
Record
176 págs.
Carlos Herculano Lopes
Nasceu em Coluna Vale do Rio Doce (MG), em 1956. Vive em Belo Horizonte (MG) desde a adolescência. Formado em Jornalismo, já trabalhou em diversos jornais, sendo hoje repórter e cronista do EM Cultura, caderno de cultura do jornal O Estado de Minas. Lopes já ganhou o prêmio Lei Sarney, em 1987, como autor-revelação. O segundo livro do autor, Memórias da sede, de contos, venceu o Prêmio de Literatura Cidade de Belo Horizonte, em 1982. O terceiro trabalho, A dança dos cabelos, rendeu-lhe o Prêmio Guimarães Rosa da Secretaria de Cultura de Minas Gerais, em 1984. O vestido, romance baseado no poema Caso dos vestidos de Carlos Drummond de Andrade, foi finalista do prêmio Jabuti em 2005.
Adriano Koehler

É jornalista. Vive em Curitiba (PR).

Rascunho