🔓 Legítima defesa

No relato de "O acontecimento", assim como em outros livros, a francesa Annie Ernaux elabora uma escrita íntima, pessoal, política e feminista
Ilustração: Annie Ernaux por Oliver Quinto
01/05/2022

Em O acontecimento, a francesa Annie Ernaux repete a construção e o tom dos anteriores Os anos e O lugar. A autora escreve a partir de cicatrizes. É forte, é bom, mas não é novo.

O acontecimento — cuja adaptação cinematográfica, dirigida por Audrey Diwan em 2021, venceu o Leão de Ouro, em Veneza — narra a vivência de um aborto que a escritora fez em 1964, época em que a prática ainda era ilegal na França. Sem apoio do namorado, da família e muito menos da sociedade, ela encara tudo em absoluta solidão. Desde 1975, as francesas podem escolher o que fazer com seu próprio corpo. A solidão que as mulheres enfrentam quando o primeiro problema surge, entretanto, permanece universal.

O viés feminista é bem óbvio, assim como o autobiográfico. Como não há possibilidade de um trabalho artístico não ser biográfico, tratarei isso como fato dado. A criatividade depende, necessariamente, de quem a exerce. Podemos até mesmo ampliar a questão de que não existe produção humana impessoal, mas esse debate é para outro momento.

Mais do que “autoficção”, o que ela faz é política. Ernaux se refere à sua escrita como sendo “uma atividade política”, conforme diz no livro L’écriture comme un couteau (2003).

A francesa costura entradas de diário, memórias, ficção e pesquisa em um curto e claríssimo retrato do que é passar por um aborto. A clandestinidade do ato é um agravante, mas a ferida aberta é a construção identitária feminina. Foram aproximadamente 30 anos até que a autora conseguisse materializar a história vivida em um livro e isso, por si, já deixa claro o peso da experiência.

Talvez a minha birra com o termo “autoficção” seja pelo fato de eu ser mulher. Mesmo considerando autoras como a Marguerite Duras, conhecida por transitar entre a autobiografia e a autoficção, é, para mim, um termo masculino. A construção identitária feminina não é fictícia. Pode ser ficcionalizante, mas jamais fictícia.

A literatura de Annie Ernaux é de uma solidão terrível e isso parece espantar as pessoas. O estar no mundo feminino é solitário.

O masculino vem, gradativamente e inexoravelmente, perdendo seus referenciais desde a década de 1960. Não é mais o líder da matilha. Não é mais o provedor. Não é mais o sexo forte, se é que algum dia foi. Todas as construções identitárias masculinas estão em xeque. Judith Butler fala sobre isso em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2003): “O ‘sujeito’ masculino é uma construção fictícia, produzida pela lei que proíbe o incesto e impõe um deslocamento infinito do desejo heterossexualizante”. O sujeito feminino, ao contrário do masculino, por ter sido construído a fórceps, não é fictício, não é frágil.

Por esse motivo, a voz feminina, frente a ausências, abandonos e violências sofridos, traz em si uma clareza quase redundante. As mulheres, por nunca terem sido sujeito, por terem sempre estado na periferia, construíram a sua identidade, o seu sujeito, à força e na dúvida. A vantagem de se construir em dúvida é que quando essa construção é questionada não há choque, não há surpresa.

O masculino, por não ter sido colocado em dúvida anteriormente, não sabe o que fazer. E, tal qual o menino na escola que não sabe como se comportar, reage com agressão. Não que a violência deva ou possa ser perdoada, esquecida. Não é esse o ponto. A questão é perceber a fraqueza no ato do abandono, da traição, da ausência, da recusa, da falência do apoio. Todos atos de violência emocional, fracos e covardes, exercidos por homúnculos fracos e covardes.

Há concretude na existência do feminino. Ernaux sabe disso no corpo, como diria Lacan.

A literatura de Annie Ernaux é de uma solidão terrível e isso parece espantar as pessoas.

Histórias vividas
A maior parte de fortuna crítica de Ernaux fala em enfrentamentos por meio da escrita, em uma literatura “crua”, “brutal”, esquecendo que o existir feminino já é um ato de resistência. Nossa única alternativa é, tal qual a Terceira Lei de Newton, enfrentar a sociedade masculina — misógina e opressora.

Certa vez um homem, falando sobre homofobia, me disse que eu não sabia o que era ter medo de sair sozinha à noite. Eu ri. De forma alguma diminuindo a gravidade ou a importância da questão, mas ri. Ri por desistência. Ri por saber que explicação nenhuma daria conta. Talvez a literatura de Ernaux dê conta. Talvez seja essa a resposta.

Seus livros tratam de histórias vividas. Ela utiliza um recurso que me é particularmente caro, o da construção de significado por meio da colagem. Une trechos e pedaços de imagens de forma a construir e desencadear tanto o mundo à sua volta quanto o mundo dentro de si. O recurso às vezes é tão claro que chega a ser didático, como no início de Os anos:

Todas as imagens vão desaparecer.
(…)
Molly Bloom deitada ao lado do marido se lembrando da primeira vez em que um menino deu um beijo nela e ela disse sim isso sim sim sim
Elizabeth Drummond morta com os pais em uma estrada em Lurs, em 1952
as imagens reais ou imaginárias, que permanecem conosco durante o sono

Às vezes um pouco mais sutil, como em O acontecimento:

Quando acabou seus sanduíches, Jean T. afundou na cadeira sorrindo com os dentes à mostra: “Como é bom comer”. Estava enjoada e me senti sozinha.

Essa passagem rápida entre a descrição da cena e o relato emocional de uma sensação interna é uma das marcas literárias de Ernaux. Não há um limite nítido entre o dentro e o fora, são camadas de um mesmo estar no mundo.

Colagem
Construímos nossa biografia e, tão importante quanto, a memória de nossa biografia em colagens de si próprias. Por esse motivo, inclusive, ocasionalmente temos as lembranças a nos enganar. Todos que já passaram por algum processo de terapia ou psicanálise sabem que muitas vezes, ao revisitar memórias, as ressignificamos. Percebemos tardiamente como um evento nos afetou. Entendemos, às vezes décadas depois do fato, que compreendemos algo equivocadamente. Esquecemos os primeiros anos de nossas vidas e muitas lembranças antigas que temos não são nossas. É o chamado “efeito confabulação”, em que assumimos como uma memória vivida algo que nos foi contado muitas vezes. Aqui, finalmente, entra o elemento ficcional: a memória nos trai. Somos todos literatura.

A questão da memória é importante para Ernaux e a autora trata do assunto em diversos momentos, como em O lugar:

Interpretar esses detalhes é um gesto que agora se impõe a mim com uma urgência maior do que aquela que me levou a um dia reprimi-los, tão segura estava eu, na época, de sua insignificância. Apenas uma memória humilhada podia ter feito com que eu os conservasse. Me submeti às vontades do mundo em que vivo, que se esforça para que todos se esqueçam das lembranças de uma vida com hábitos mais simples, como se fossem uma coisa de mau gosto.

Ou, falando diretamente a respeito, em entrevista à Veja: “Escrevendo, sempre surge a questão da evidência: além do diário e da agenda do período, acho que não disponho de nenhuma certeza a respeito dos sentimentos e pensamentos, devido à imaterialidade e à evanescência daquilo que atravessa a mente”.

Ela escreve em 1999 algo ocorrido em 1963. Por mais vivido que tenha sido, aqui certamente entra mais um elemento da colagem. A história é o resultado da soma de seus registros em diários, anotações, suas lembranças com, certamente, alguma pesquisa.

Annie Ernaux escreve a partir de cicatrizes. É forte, é bom, mas não é novo.

História é literatura
Talvez seja relevante me posicionar nesse ponto, para clareza do leitor. Sou da política de que História é literatura e de que não existe imparcialidade. Não existem limites muito nítidos entre literatura, história, jornalismo, sociologia, ficção, etc. Da mesma forma, toda literatura tem algo de biográfico.

Professora, Ernaux conhece intimamente o valor de uma boa pesquisa. Ela explicita com acontecimentos mundiais o período que vive. E, como todos que vivem dramas pessoais, também dimensiona a importância que de fato ocupam:

Escrevi para P. dizendo que estava grávida e que não queria o filho. Tínhamos nos despedido sem certezas sobre a nossa relação, e eu senti certa satisfação em incomodar a sua tranquilidade, mesmo não tendo nenhuma ilusão sobre o profundo alívio que lhe causaria a minha decisão de abortar.

Uma semana depois, Kennedy foi assassinado em Dallas. Mas isso já não me despertava nenhum interesse.
(O acontecimento)

Os acontecimentos políticos só existem como detalhes: na tevê, durante a campanha presidencial, a visão aterradora da dupla Mendès France-Defferre, o pensamento que lhe ocorreu na época, “mas por que Pierre Mendès France não se apresenta sozinho?”, e o momento em que Alain Poher, no último discurso antes do segundo turno, coça o nariz, e a impressão que ela teve de que, por causa desse gesto feito na frente de todos os espectadores, ele seria derrotado por Pompidou.
(Os anos)

O acontecimento é político, histórico e feminista. É, também, íntimo e pessoal. Muitos críticos se referem a essa exposição como um ato de coragem, se esquecendo que a única arma que um escritor tem é essa. Não é coragem, é sobrevivência. É, no fim, legítima defesa.

Se eu tivesse descoberto o nome desse residente de plantão da noite do dia 20 ao 21 de janeiro de 1964, e se me lembrasse dele, não hesitaria em registrá-lo aqui. Mas seria uma vingança inútil e injusta na medida em que seu comportamento devia ser apenas uma amostra de uma prática geral.
(O acontecimento)

Entendo isso visceralmente. Em 2017, fiz uma exposição individual no MIS de Campinas intitulada Não me depilei para isso, que tratava de (devolvia as) violências emocionais recebidas.

O que fica de mais contundente em O acontecimento é o relato de abandono, da falta de apoio, da solidão. O que Ernaux expõe não é um acontecimento pessoal, individual. O que ela escancara é a violência com que a sociedade abandona a mulher à própria sorte. A solidão é um acontecimento feminino universal. E isso toda mulher conhece, tendo ou não passado por um aborto. Tanto faz.

O acontecimento
Annie Ernaux
Trad.: Isadora de Araújo Pontes
Fósforo
80 págs.
Annie Ernaux
Nasceu em 1940, em Lillebonne, na França. Estudou na universidade de Rouen e foi professora do Centre National d’Enseignement par Correspondance por mais de trinta anos. Seus livros são considerados clássicos modernos em seu país de origem. Em 2017, Ernaux recebeu o prêmio Marguerite Yourcenar pelo conjunto de sua obra.
Carolina Vigna

É escritora, ilustradora e professora. Mais em http://carolina.vigna.com.br/

Rascunho