Épico de almas

"Vinco", de Manoela Sawitzki, desliza a linguagem por diferentes ritmos, entonações e traumas
Manoela Sawitzki, autora de “Vinco” Foto: Omar Salomão
01/11/2022

A personagem Manu, narradora de Vinco, terceiro romance de Manoela Sawitzki, sugere em determinado momento que a busca pela origem etimológica das palavras lhe soa acadêmica e inútil. Essa impressão que Manu deixa escapar em seu pensamento surge de uma conversa com outra personagem instigante e enigmática, “uma usina furiosa de vitalidade”, Giorgos, o grego imigrante que pesquisa Jean Genet numa Paris odiosa e paradoxal. O diálogo entre os dois é deliciosamente conduzido pela escrita lúcida e espontânea da autora, num trecho que percorre o drama familiar e repete o trauma fundante de Manu. A frase de Giorgos é sintomática e certeira: “a família é a primeira célula criminal”.

Mas voltando à questão da etimologia das palavras, gostaria de comentar a escolha, nunca aleatória, do título. Buscando pela origem de Vinco, que pode ser do latim ou “obscura”, há uma clara alusão a vestígios ou traços no corpo pela ação de algo externo, “qualquer marca, ranhura ou vergão deixado na pele ou sobre uma superfície pela ação de um objeto contundente”; “marca profunda e permanente”. O título é prenúncio desse trauma persistente no corpo de Manu e de outras personagens — especialmente as estigmatizadas pelas violências de gênero — carregadas de bestialidades e ausências desde a infância, e que incorporam matizes e profundezas no decorrer da vida, das relações, dos encontros com outras pessoas, outros lugares, outras injustiças e angústias, adensadas pelas dores do não pertencimento. E apesar da repetição do real, de todas as agressões sofridas por silenciamentos e pela ação contundente da rejeição ou do abuso sexual, Manu não guarda apenas dores, sua história é de resistência, de amor, de enfrentamento.

O narrador — transmutado em Ela, em Ewa, em Giorgos, que pode incorporar a avó libertária, o pai reprimido, a mãe ausente, as três putas chinesas nos becos parisienses — seduz quando se olha no espelho. E malgrado a alopecia que vinca sua vaidade mais feminina, veste-se com as cores das ruas, das crossdressers que fascinaram Manoela Sawitzki em sua pesquisa para o livro. Como a própria autora relata, são experiências na linguagem e no corpo, certamente colhidas com cuidado e seriedade, com o afeto necessário a uma pesquisadora que tece um mosaico de memórias preciosas demais para serem expostas sem a linguagem exata, na medida do merecimento dessas personagens e histórias, um mosaico tecido na pele das palavras.

Pessoas comuns
Do Rio de Janeiro, passando por Paris e adentrando Pernambuco até a distante Tacaratu, Vinco é também um romance de pessoas comuns, de diálogos que fisgam as palavras como se fossem feitas de carne, deslizando a linguagem por diferentes ritmos, entonações e traumas. Com a mesma fluidez com que Manoela nos apresenta uma “novela familiar” no Rio de Janeiro, somos levados a sentir a hostilidade repelente de Paris aos estrangeiros d’origine outra que não seja a francesa. Marcadamente, é claro, direcionada àqueles oriundos de países que não fazem parte dos escolhidos pelo IDH capitalista exploratório, discriminatório, imperialista, enriquecidos desde os primórdios pelas despossessões de todos os tipos.

O retorno do real no/na narrador/narradora Manu é prisma de muitas imagens, rostos de muitas pessoas LGBTQIA+ também vincadas, que procuram com insistência uma existência possível para o erotismo de seus corpos. Falo do erótico aqui como evocou Audre Lorde, como um recurso enraizado no interior de sentimentos ainda não pronunciados ou reconhecidos, um poder “profundamente feminino e espiritual”. Lembrando que, para se perpetuar, “toda opressão deve corromper ou distorcer as fontes de poder inerentes à cultura das pessoas oprimidas, fontes das quais pode surgir a energia da mudança”.

O poder evocado por Manoela Sawitzki em Vinco é justamente o de expor a necessidade humana, com seus componentes psíquicos e emocionais, acima da lógica do lucro e da exclusão. Pois, ainda com Audre Lorde, “o maior horror desse sistema é que priva de nosso trabalho seu valor erótico, seu poder erótico, e rouba da vida seu interesse e plenitude”.

Por fim, tomo emprestada a declaração “deslumbrada” de Laerte na contracapa de Vinco. Trata-se muito mais do que uma narrativa que toca às pessoas trans, “é uma cena enorme, com países, continentes, universos e tempos. É um épico das nossas almas”.

Vinco
Manoela Sawitzki
Companhia das Letras
256 págs.
Manoela Sawitzki
Nasceu em Santo Ângelo (RS), em 1978. É escritora, dramaturga e doutora em literatura, cultura e contemporaneidade pela PUC-Rio. É autora dos romances Nuvens de Magalhães (2002) e Suíte dama da noite (2009) — também lançado em Portugal e na França — e de contos publicados em antologias no Brasil, na Argentina e na França.
Luciana Tiscoski

É jornalista e escritora. Mestre e doutora em Literatura pela UFSC. Com o coletivo de poetas mulheres Abrasabarca (Florianópolis) participa dos livros Abrasabarca (Medusa, 2018) e Revoluta (Caiaponte, 2019). É autora da coletânea de contos Área de broca (Nave, 2021)

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