Bangue-bangue sem fim

Romance de Paula Fábrio abarca as relações sociais entre a classe média e os moradores da periferia
Paula Fábrio, autora de “Estudo sobre o fim”
01/09/2022

O Brasil é um território recortado por clivagens, um ajuntamento que não cola. As relações sociais neste país podem ser comparadas a um tecido rústico e esgarçado, cujos fios, correndo em paralelo, se encontram por mero acaso, sem lógica, sem intenção e sem estrutura.

É nesse o contexto, que por si só já tem muito o que dizer, que os personagens de Estudo sobre o fim, de Paula Fábrio, se movem, ou melhor são empurrados. Pessoas dispersas se cruzam numa topologia social esburacada. Cada uma delas contornando ausências e quedas às quais não raras vezes sucumbem. Poucos transitam entre o centro e a periferia e talvez nem se perguntem mais sobre o sentido de tudo isso.

O livro traz uma tentativa de decifrar o Brasil, mais precisamente a cidade de São Paulo, partindo do que se pode ver, sentir e escrever, na urgência do aqui-agora. O livro dá pistas para se compreender a cisão social e suas dinâmicas, por meio dos conflitos e das tensões entre a classe média e a periferia paulistana.

Linguagens periféricas
Segundo a autora, este é o último livro de uma trilogia, embora seja o primeiro a ser publicado. Diferentemente de seus livros anteriores, Estudo sobre o fim não tem uma linguagem poética. São muitas as vozes evocadas no texto, mas delas sobressai uma linguagem que tenta se aproximar da(s) periferia(s). Frases curtas, metáforas incrustradas no cotidiano; plural sem conjugação, gírias malandras e dramas pessoais antevistos, mas contrastados com um humor inesperado.

O enredo é espacialmente demarcado: o prédio na Vila Madalena, a praia de Coqueirinho, Vila Prudente, ZL, o assentamento na periferia. O nome dos personagens consolida no leitor a imagem síntese de cada um: Lusco-fusco, Magaiver, Sol. Contudo, nesse topos seguramente nomeado, tudo foge ao controle e à expectativa de coerência. As vítimas de preconceito também são preconceituosas, os bandidos promovem benefícios comunitários, o professor de história é defensor da monarquia e portador de arma.

Personagens e enredo
No início do livro, três meninos (Costela, Conexão e Sócrates) entram em um prédio residencial para furtar bicicletas. Assim como a história de Pontes é contata a conta-gotas ao longo do livro por diferentes narradores e personagens, as consequências deste roubo também aparecem aos poucos.

Chama a atenção o enredo costurado pelo acaso e, como se sabe, o acaso não comporta maiores explicações nem atribuição de causalidade. Isso já está posto no início do livro, quando a professora sai do prédio onde reside e cruza com um dos meninos que roubam bicicletas. Ela não o vê, não o encara, é só um pivete. Mas ela lê em sua camiseta: “Jesus tem planos para você”.

Quase no final do livro, Sócrates, o mais novo dos três, aparece na porta de uma igreja, cheio de medo e vontade de entrar. Nesse momento o leitor se lembra da camiseta “Jesus tem planos para você” e pode se recordar também de uma cena marcante do filme Pixote (Hector Babenco), na qual o menino que se deita no colo da prostituta, em vez do sexo, quer mamar no peito dela.

A “fauna urbana” de São Paulo está representada no livro: o motoqueiro que faz entregas, a “síndica sapatão”, o ex-agente da ditadura que montou uma empresa de segurança, o pastor empreendedor, o mentor de uma empresa de interceptação que é “meio filantropo”. Todos os personagens, incluindo os secundários, têm seus mundos e suas histórias de vida contadas de modo resumido, redondo, como se fechados neles mesmos.

O livro não tem protagonista, mas vozes diversas. O recurso se casa muito bem com o fato de que fatores externos e alheios aos personagens definem suas vidas. É provável que Magaiver nunca consiga morar na Vila Madalena, bairro onde Sol, a mulher que ele deseja, passa a dormir algumas noites quando começa a namorar com sua professora.

Caos, desconexão, boas intenções e malandragem por todos os lados: do camelô da Santa Efigênia (Pontes) que organiza uma cooperativa (e depois um sindicato, se elege vereador ligado a uma igreja e volta à sua terra para se tornar um grande empresário, o rei do coco) ao Lusco-fusco, personagem secundário, chapado e infantil.

Bandidos e igrejas
A trajetória incerta de Pontes (bandido e/ou mocinho) é chave na condução do enredo, fazendo uma espécie de ponte (seria este o motivo do nome?) que permite alguma conexão de sentido entre os personagens e seus encontros aleatórios. Conforme a biografia de Pontes avança, fica cada vez mais difícil qualificar o personagem.

É bem antiga a dificuldade de se definir quem é bandido no Brasil. Basta lembrar Lampião e Maria Bonita ou um outro filme de Hector Babenco, Lúcio Flávio: o passageiro da agonia (1978), apenas para citar dois exemplos. No livro Bandidos, de Eric Hobsbawm, o banditismo é tomado como um fenômeno histórico mundial. Em diversos países, o historiador encontrou três componentes do imaginário social sobre os “fora da lei”: violência, poder e justiça. Na ausência do Estado, eles tendem a se tornar justiceiros, defendendo os fracos contra a opressão dos fortes. Estudo sobre o fim, seguindo por esta trilha, propõe uma reflexão sobre as muitas faces do banditismo.

Movimentando-se no fio da navalha, os personagens não caem de um lado nem de outro, preservando as ambiguidades e a complexidade de cada um. Por evitar maniqueísmos, o livro permite ao leitor observar na ação e na intenção dos personagens uma espécie de mistura tão popular quanto paradoxal de relativismo moral, típico das sociedades modernas, com a lei de talião, típica das sociedades tradicionais.

Um país que se pergunta sobre como Bolsonaro foi eleito precisa enxergar uma realidade mais complexa, e que exige uma abertura à pluralidade, diferenças e antagonismos. Ou seja, exige não apenas enxergar, mas também se deter, naquele pivete e não apenas ler na sua camiseta: “Jesus salva”, por mais que isso possa contrariar as convicções de quem olha.

Paula Fábrio não apenas faz a denúncia do dízimo, como também se mostra sensível à compreensão dos sentidos que justificam a adesão religiosa. Igrejas e templos se apresentam como um locus capaz de reverter a direção trágica de vidas sem rumo. Isso fala muito sobre a cidade de São Paulo que, se em 1991 tinha 78% católicos e 8% evangélicos, duas décadas depois passou a ter 58% católicos, 22% evangélicos. Se mantidas as mesmas condições, os evangélicos passarão os católicos em 2031. E não apenas na cidade de São Paulo, mas em todo o país, onde a religião sempre ocupou centralidade na vida política. O Brasil chegará no fim do século com uma profunda mudança na configuração religiosa. Os efeitos disso começam a ficar evidentes.

Para quem quer ver
O livro mostra um Brasil difícil de se enxergar, violento e desigual. O subtítulo, bangue-bangue à paulista remete a uma batalha que resulta da desigualdade e da indiferença em relação às barreiras sociais e econômicas que ajudam a espalhar essa cegueira.

Talvez a palavra “fim”, incluída no título, remeta à ausência de propósito/finalidade na vida dos personagens, ou a uma tentativa de elaborar, por meio da literatura, um Brasil cada vez mais enigmático. Talvez a palavra “suave” que se lê na última frase, possa ser interpretada como um veio de esperança. Mas pode ser também apenas um alento capaz de provocar um suspiro breve naqueles que não sabem, de fato, qual será o fim.

Estudo sobre o fim: bangue-bangue à paulista
Paula Fábrio
Reformatório
135 págs.
Paula Fábrio
Ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura de 2013 na categoria autor estreante com o romance Desnorteio. Em 2016, Um dia toparei comigo foi finalista do mesmo prêmio. Seu terceiro livro, No corredor dos cobogós, ganhou o Prêmio de melhor livro Jovem da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. A autora também recebeu o Prêmio Escritora Revelação da FNLIJ.
Ana Cristina Braga Martes

É socióloga e escritora. Autora de A origem da água.

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