Apoteose do cotidiano

“O grito dos mudos”, de Henrique Schneider, dialoga com dilemas dos seres invisíveis da atual realidade brasileira
Henrique Schneider: a narrativa se dá, também, por meio de reconstituições.
01/05/2007

A limpeza. E o temor diante da ameaça de vir a ser substituído por uma máquina. Estas são as duas questões centrais de O grito dos mudos, romance de Henrique Schneider. A narrativa apresenta um personagem que passou por diversas ocupações mal remuneradas, socialmente irrelevantes e invisíveis até encontrar um ofício, também mal remunerado, socialmente irrelevante e invisível mas que, como o texto insinua, é o mais adequado para a sua personalidade: lavar pratos. Nicolau, o protagonista de O grito dos mudos, lava pratos em um restaurante.

Pegar o prato sujo; extrair dele as sobras e despejá-las na lata de lixo, (…)
Pegar o copo sujo; extrair dele as sobras e despejá-las na lata de lixo, (…)
Pegar a travessa suja; extrair dela as sobras e despejá-las na lata de lixo, (…)
Pegar o garfo sujo; extrair dele as sobras e despejá-las na lata de lixo, (…)
Pegar a faca suja; extrair dela as sobras e despejá-las na lata de lixo, (…)

Limpar. Eis a missão profissional e, acima de tudo, existencial de Nicolau. Extrair a sujeira. E ficar, permanecer quietinho. O personagem central de O grito dos mudos, a exemplo da grande massa que atua nas coxias e bastidores da realidade, não tem voz. Apenas cumpre a sua função. E segue. Continuamente. Todos os dias. Repetidamente. Sem nenhuma surpresa. Sem tempo, nem vez, nem espaço para, por exemplo, enunciar frases, emitir ais em voz alta ou apresentar possíveis pontos de vista. Nem mesmo no seu campo de batalha: a área do restaurante destinada à limpeza de pratos, copos, travessas, garfos, facas e outros objetos. Atento deve estar, apenas, para o seu ofício:

Na verdade, ninguém se importa muito com isso (o não falar). O que importa é que os talheres e pratos estejam limpos e reluzentes quando necessário. O jeito estranho de Nicolau — quieto, fechado, quase sombrio — é só dele; a louçaria, entretanto, faz parte do ganha-pão de todos por ali. Afinal, nela são servidas as iguarias para os fregueses. Desse modo, no momento em que tudo está limpo, aos outros não faz diferença se Nicolau está com o pensamento próximo ou longínquo.

Estratégias
A narrativa de O grito dos mudos se dá, também, por meio de reconstituições. O leitor e a leitora têm acesso a determinada informação, por exemplo: que o protagonista é casado. Posteriormente, e apenas posteriormente, o texto oferecerá dados a respeito de tal condição. E, é preciso afirmar: tal estratagema funciona, sim, com eficácia.

No entanto, o ponto alto da narrativa acontece a partir do momento em que Nicolau recebe a notícia de que uma máquina de lavar será instalada na empresa em que ele trabalha. A partir daí, o texto pode vir, até, a provocar nos leitores uma sensação que beira o desespero, o pânico e a ausência de chão diante do porvir: o então estado de Nicolau.

Naquela manhã, Nicolau saíra de casa com uma ânsia incomum no estômago, sentindo dentro da boca o cheiro acre do café mal tomado. Algo estava ruim — ou ficaria ruim, era o pressentimento que ele tinha.

A ameaça de ser substituído por uma máquina transtornou Nicolau. Ele não havia sido comunicado de nenhuma mudança. Havia, sim, apenas a imagem da máquina sendo instalada no ambiente de trabalho. E foi esta imagem que provocou transformações no protagonista. Afinal, havia contas, compromissos, enfim, uma existência a ser mantida por meio do emprego. “Demissão depois dos quarenta nunca é algo simples, é sempre um ato complexo, ao menos para quem é demitido.” Depois de uma jornada de lavar objetos no restaurante, ele quebrou a rotina. E não voltou para casa.

A narrativa mostra em dois momentos o não-regresso de Nicolau. Pelo ponto de vista de Natélia, a esposa que espera o marido e fica a imaginar o que se passa, ou passou, com ele. E a partir da ação de Nicolau que, perturbado com a possível perda do emprego, perambula pelas ruas. O protagonista de O grito dos mudos, em um primeiro momento, entra em uma loja a fim de obter informações a respeito de uma máquina de lavar. Desacata o vendedor: “Um bom lavador é mais ligeiro do que este robô”. Posteriormente, caminha até chegar a um bar onde bebe e encontra uma prostituta com quem vai passar alguns minutos. Fica evidente, até demais, que o sujeito obcecado pela idéia de limpeza se deixa sujar com uma possível impureza social. Enquanto isso, a esposa, depois de pensar em diversas possibilidades, trágicas em sua maioria, dorme à espera do marido — num momento de lirismo e intensidade narrativa incomuns na malha ficcional brasileira.

Engrenagens
O subtítulo de O grito dos mudos traduz com precisão a proposta da obra: a história de muitos homens contada através da história de um só homem. E é isso mesmo. O romance mostra por meio da trajetória de Nicolau como são ou podem vir a ser alguns dos vários anônimos, os brasileiros não-celebridades. Nicolau representa um brasileiro pobre, a exemplo da maioria que forma a realidade nacional, que, entre outras ações, trabalha apenas e somente para sobreviver. Para Nicolau, e muitos outros, luxo, por exemplo, não passa de uma palavra, ou sonho ou mesmo uma miragem. Nicolau se move em busca da felicidade da rotina. Uma ameaça de demissão ou qualquer outro conflito significa, como se fez neste enredo, quase apocalipse. Nicolau faz parte dos que estão por aí, por exemplo, num ônibus, numa linha qualquer:

Domésticas diaristas cochilando em seus assentos, indiferentes às freadas e solavancos da condução; velhos aposentados que parecem ainda mais velhos, o dinheiro escasso diluindo-se em consultas e farmácias; donas-de-casa suburbanas, pacotes nas mãos e bolhas nos pés, alegres com compras e desesperadas com os preços.

Nicolau — personagem literário, simboliza mais um elemento da engrenagem da roda social — é, foi feito com massa humana. Tem dimensão de gente. Nicolau entra em contradição. É verossímil. E foi bem, muito bem construído. (Se você duvidar, a obra está aí para evidenciar isso e muito mais. Eventuais reclamações podem ser encaminhadas para este Rascunho pelo e-mail [email protected]).

Relevante também é Natélia, a esposa de Nicolau. Ela também representa parte das brasileiras reais, dessas que acreditam que tudo pode mudar e ser bem melhor no futuro. Ela parece aquelas que costumam compram Tele-Sena. Ou as que geralmente jogam na Mega-Sena. A sorte dela, no entanto, foi ter encontrado Nicolau e, desde então, poder viver em uma casa só sua, não nos fundos do local onde o pai dela trabalhou até morrer. Natélia enxergava em Nicolau a ponte para seguir rumo a uma vida bem menos ordinária. Mas o cinza se fazia mais intenso que o sonho de cores vivas:

Os dias melhores não tinham chegado, (…), e a mesa capenga no meio da sala lembrando-lhes que a pobreza era a mesma e nada mudara.

Natélia tentava impregnar com tonalidades líricas o momento em que encontrou Nicolau, mas ele insistia em tingir aquilo com nuances de realidade real. Natélia, assim como o seu marido, é uma personagem verossímil, tão verossímil como é o enredo deste O grito dos mudos.

O grito dos mudos pode provocar nos leitores e nas leitoras as sensações que envolvem os personagens. E isto já credencia a obra como boa. Boa sim. Afinal, este resenhista, que acima de tudo é um leitor, já se cansou de argumentos e jargões pseudo-sofisticados — da mesma forma que a pseudo-erudição dos pseudo-eruditos e os seus termos e as suas cartilhas não conseguem nem têm coragem de dizer: é bom, simplesmente bom. O grito dos mudos comove. E este resenhista não teme que a pseudo-intelectualidade diga: “Mas que sujeitinho superficial e leviano”.

O grito dos mudos é um bom livro. E isto basta.

(O grito dos mudos foi publicado originalmente em 1989 e faturou, na época, o prêmio Maurício Rosenblatt. Agora, a obra sai em âmbito nacional com o selo da Bertrand Brasil).

O grito dos mudos
Henrique Schneider
Bertrand Brasil
125 págs.
Henrique Schneider
Gaúcho de Novo Hamburgo, cidade da Grande Porto Alegre. O grito dos mudos foi publicado originalmente em 1989 e venceu o prêmio Maurício Rosenblatt na categoria romance. Schneider escreveu e publicou outras três novelas. Participou da coletânea Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire. É colunista semanal no jornal ABCDomingo.
Marcio Renato dos Santos

É jornalista e escritor. Autor de Minda-Au e Mais laiquis, entre outros.

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