Quatro mulheres e uma culpada

As muitas (muitas mesmo) incertezas e dificuldades para publicar um novo romance
Ilustração: FP Rodrigues
18/08/2023

Em 2014, achei que tinha terminado meu terceiro livro. Enquanto escrevia, tinha quase certeza: Puxa vida, agora sim, dessa vez vai ser fácil publicar! Desde 2012 eu mostrava pedacinhos no Facebook, e duas pessoas, de duas editoras diferentes, mandaram recados: “Quero lançar! Quando fica pronto?”. Entre o aperitivo e o original concluído, uma editora faliu, a outra pessoa foi demitida.

Enviei meu original suado para os dois últimos contatos da minha lista — esperanças desnutridas, mas ainda balbuciando. Nenhum interesse. Não soube mais o que fazer. Com quem falar, a quem pedir? O silêncio em torno do livro anterior já tinha passado uma rasteira no meu orgulho. Sobrava pouquíssima energia.

Então surge a primeira mulher desta crônica: A.

(abrevio os nomes, pelo charme do sigilo)

A. foi editora por décadas, e agora traduzia como freelancer. Tinha me aconselhado desde o início. Sentei na poltrona de sua sala, entre estantes lotadas de livros celebrados de autores que ela editou.

Explico o beco sem saída em que me encontro. Ela lamenta: estava aposentada, sua influência se desbotara. Esperei ao menos uma esmolinha: uma palavra de encorajamento. Mas ela não leu o original. Ou, se leu, não se entusiasmou. Foi o que intuí, no silêncio da sala.

Comecei a chorar.

Um choro contido, mas ainda assim: Que mulher adulta chora na casa de outra pessoa, em horário comercial, por um livro na gaveta?

A verdade é que raramente choro (um mecanismo de defesa me imobiliza). Mas ali emergiu a criança que pinta sua mão numa flor de papel, como presente de dia das professoras. Depois de oferecê-la com orgulho e amor, nota a flor enfileirada num armário de canto, entre outros presentinhos rabiscados de pré-escola que de fato são.

Chorei uns minutos envergonhados até conseguir me conter.

A. então me ofereceu um lenço: disse que conversaria com B.

B. também trabalhara em editoras por quase duas décadas, e agora era agente literária.

Naquele ano, com aquele livro, tampouco B. conseguiu me ajudar. Mas me ouviu e me apresentou a C., que trabalhava com D.

A três mulheres — B., C. e D. — tentaram vender meu livro às editoras, por alguns anos. Nada deu certo. Me explicaram que o mercado editorial andava ruim, em 2015, 2016 e 2017. Eu me sentia como a banda Twisted Sister (para entender, procure na internet o documentário We Are Twisted Fucking Sister). Fiquei na Zona Fantasma, “onde os prisioneiros sabem de tudo mas não podem interferir em nada”.

Às vezes imagino que meus livros mais acidentados (o segundo e o terceiro) foram difíceis de publicar porque falavam de mulheres, em suas relações com outras mulheres. Generalização possivelmente injusta, admito, pois também tive apoio de editores homens, nesse período: E., F. e G.

A culpa deve ser mesmo de outra mulher: Minha avó, H., que me fez acreditar que eu era a coisa mais lindinha desse mundo.

Sabina Anzuategui

É autora de Escrevi pra você hoje (2023), Uma mulher sem ambição (2021), Luciana e as mulheres (2019), O afeto (2011) e Calcinha no varal (2005). É bisneta de Marciano. Ama os cachorros platonicamente.

Rascunho