Tem milênios de tradição o abuso às crianças. Ou não? A criança manipulável, violável, vendável, destrutível, desprezível, descartável. Pacote enjeitado, anjinho de guerra, bonequinha do tio, prenda, oferenda, joguete, moeda de troca. Coisinha subjugável, adestrável, iludível, consumível, desfrutável.
Cora Coralina, menina em Goiás no final do século retrasado, dizia que, naquela época, “criança não valia mesmo nada”. Naquele Tempo Velho, não tão distante do nosso, criança não dava opinião, não tinha voz, mal tinha nome, apanhava em casa, apanhava na escola. Cora escancara os abusos dos adultos, “todos poderosos”, em muitos poemas de Vintém de cobre. Cora denuncia pais e mães, juízes e corregedores. “A criança faltosa, inconsciente, apanhada, destruída./ Ré…ré…ré…de crimes sem perdão./ E eles, enormes, gigantescos, poderosos,/ donos de todas as varas, aplaudidos”.
Pouco depois da infância de Cora em Goiás, acontecia, lá em Viena, de Freud dar voz e nome a uma criança de um de seus casos clínicos, o pequeno Hans. Para o cronista e pediatra Paulo Rosa, foi só então que as crianças ganharam “o foro de ser gente”. Uma conquista de pouco mais de um século. Mas os abusadores, os abusadores têm milênios. Os abusadores são de qualquer tempo, como vermes. Todos poderosos, prosperando na obscuridade dos esgotos e dos intestinos doentes das casas, em recintos ricos ou pobres, montanhas de vermes sobre uma refeição infinita.
Quem saberá o que rege o interior das casas em que as crianças vivem? Que tipo de silêncio paira entre quatro paredes ou quais palavras são ditas. Que tipo de mãos e olhos, que tipo sórdido ou puro de delicadeza, quais lições particulares, quais expedientes corretivos, quais regras. O que ali vai se forjando reservadamente. O que vai se estragando, também reservadamente. Será que, mesmo hoje, dentro das próprias casas, as crianças são gente?