Você não se lembrará desse dia, ainda que ele esteja entrando por seus poros exatamente agora. Estou assistindo a esse acontecimento, e você pouco me vê, você sequer me nota, porque sou apenas uma parte ínfima da paisagem que enche seus olhos nessa manhã de inverno inesperadamente dourada.
Sim, é inverno, mas hoje o sol rasgou o teto leitoso que ontem nublava o céu e muitas crianças vieram à praia. O mar está amigável e as atrai, deixando montinhos brilhantes de conchas nos rastros de espuma à beira d’água. Você não veio à praia, mas pode observá-la como um rei do ponto onde se encontra, no alto do muro. Percebo que sua mãe, ou a mulher que o embala como mãe, sentada ali no alto, está cantando para você, e você, tão maleável ainda, tão pequenino, balança no colo, que é sua rica poltrona ao ar livre com vista para o mar.
Seu tempo de vida até agora talvez não chegue a seis meses e já essa manhã cheia vem alagar seus olhos de sol, mar, gaivota, pomba, gente, tudo numa só massa brilhante. Faço parte dessa massa brilhante dentro do seu campo de visão; minha filha também, ao meu lado, é parte desse quadro, agachada na areia fofa, brincando de fazer túmulos efêmeros. Chamo a atenção dela para o alto do muro onde você está, num gostoso colo acolchoado. Você tampouco a percebe, e agora somos duas a levar conosco esse momento seu, de bebê ao sol diante do mar. É nosso último dia de praia desse inverno. Dia bom de plantar memória, manhã cheia, manhã clara, entre túmulos de areia e montinhos de conchas, todos dourados.