Eis aquela época do ano propícia a parar e ficar pitando um pouco. Pitando, vadiando mentalmente, olhando ao longe, folheando a vida em suas lições a sangue quente e sem prancheta. Como nos sonhos que se sucedem sem aparente relação entre eles, vão passando uns pensamentos…
Por exemplo, pensar nesse desenho que a vida vai desenhando, e cuja figura, porque transmutante, como um animal fantástico, nunca retemos. Pensar na química do tempo, que age sobre os sentimentos e também neles desenvolve, como sobre pães e frutas, exuberantes colônias de fungos verdes e vermelhos. Pensar que, entre tantas mortes que nos são impingidas, há algumas que secretamente escolhemos… e também que existe uma alegria rara, muito rara, de raios convergentes, que é capaz de atravessar paredes gélidas.
E os pensamentos vão passando, nuvens no céu da cabeça, manadas de nuvens, cordilheiras, buquês. Pensar na liberdade que só floresce à margem das grandes vias. Lembrar que há sempre um destino das nossas palavras que não intentamos, e, independentemente da nossa vontade, também vinga. Coisas assim, boas de pitar, que não levam a nada, realmente, senão a vaguear, sem outros desejos mordendo. Nuvens, mares de nuvens, cabeleiras, serpentes.