Volto aos textos que reuni para um novo livro e me demoro admirando as sugestões e correções da revisora. Tem qualquer coisa de fantástico nisto de passarmos os olhos tantas e tantas vezes pelo que escrevemos e não sermos capazes de enxergar os próprios erros, podendo, no entanto, os mesmos olhos detectar, cirurgicamente, erros alheios.
Não enxergamos nossos erros até ver cada um deles em destaque, graças a esse leitor ou essa leitora fundamental que tudo vê, pois que, além de ver, revê, e, com tanta precisão e argúcia, revê, que aí se dá o admirável de seu ofício, de podar do texto tudo o que é descuido, vício, acidente, confusão ou excesso sem sentido.
Claro que há aqueles delitozinhos gostosamente picantes contra a norma culta, que menos são vistos como erros do que como temperos, claro também que há as bem-vindas repetições, os excessos propositais, mas o que esse leitor ou essa leitora fundamental pesca, entre extravagâncias e desvios, são sobras que nada informam, nada acrescentam nem temperam.
Nesse desembaraço a pente fino, nosso leitor fundamental pode, eventualmente, sugerir alguma reformulação maior, por sempre haver outros meios e modos mais claros de dizer. O toque do bom revisor simplifica sem empobrecer e aponta outras possibilidades afins, sem mudança de timbre. Assim que, além de agir como um elucidador sutilíssimo, o bom revisor, muitas vezes, é um profissional do bom senso.
Tanto mais pertinente ele será quanto mais discreto for seu toque. Daí sua excelência, nesses dedos transparentes. O contrário disso pode gerar uns quantos desastres e desgostos, pelo que sei de amigos escritores que tiveram seus textos descaracterizados pela intervenção de profissionais ineptos. Num desses casos, a revisora, por vício próprio, cravejou o texto de vírgulas inúteis, dando à leitura a toada de um desespero asmático.
Como tive a boa sorte de dedos transparentes, incluindo aí só o essencial de vírgulas e acentos, cabe-me agradecer. Então aqui vai, com a maior estima, meu agradecimento à revisora que, feito anjo da boa consciência, evitou que eu desse vida e página a deslizes, confusões e cochilos tão desnecessários quanto traiçoeiros.