Nossas palavras se perdem, cedo ou tarde se perdem, pelos ares, por terra, elas desaparecem, vão à praia, vão à guerra, já pouco sabemos delas, e assim perdidas, desaparecidas, elas erram por arredores elétricos, por colos macios, por mãos severas, vão pelos cantos mal iluminados das festas, dos trens, dos becos malditos, dos fundos dos prédios, passam por camas e sonhos diversos, impregnam-se de olhos forasteiros, tigrados sentimentos, temores e ardores alheios, adquirem outros sentidos, outros ritmos, outros acentos, passa o tempo e nada mais lhes sabemos, mas afinal todo escritor, inevitavelmente, em algum momento se sente um fantasma entre fantasmas, como um doido falando sozinho, e tão doido que se compraz do ridículo disso, pois que se percam, desapareçam, nossas palavras, corram perigo, desprezadas, surrupiadas, usufruídas, distorcidas, que errem e se transformem no transcurso dessas viagens desconhecidas, e, se por acaso dermos com elas de novo numa dessas cambalhotas do destino, não serão mais nossas palavras, não aquelas antes escritas, mas afinal é o que acontece com tudo o que vive, isso de impregnar-se, transmudar-se, perder-se, tornar-se irreconhecível, e todo escritor que em algum momento já se sentiu um fantasma entre fantasmas, como um doido falando sozinho, também já deve ter se espantado com essas inimagináveis voltas da vida.