Nossas palavras se perdem

As palavras, ao abandonarem o escritor, percorrem o mundo, mudam de sentido e retornam irreconhecíveis, fazendo do autor um fantasma cercado por fantasmas
Ilustração: Mariana Ianelli
03/01/2026

Nossas palavras se perdem, cedo ou tarde se perdem, pelos ares, por terra, elas desaparecem, vão à praia, vão à guerra, já pouco sabemos delas, e assim perdidas, desaparecidas, elas erram por arredores elétricos, por colos macios, por mãos severas, vão pelos cantos mal iluminados das festas, dos trens, dos becos malditos, dos fundos dos prédios, passam por camas e sonhos diversos, impregnam-se de olhos forasteiros, tigrados sentimentos, temores e ardores alheios, adquirem outros sentidos, outros ritmos, outros acentos, passa o tempo e nada mais lhes sabemos, mas afinal todo escritor, inevitavelmente, em algum momento se sente um fantasma entre fantasmas, como um doido falando sozinho, e tão doido que se compraz do ridículo disso, pois que se percam, desapareçam, nossas palavras, corram perigo, desprezadas, surrupiadas, usufruídas, distorcidas, que errem e se transformem no transcurso dessas viagens desconhecidas, e, se por acaso dermos com elas de novo numa dessas cambalhotas do destino, não serão mais nossas palavras, não aquelas antes escritas, mas afinal é o que acontece com tudo o que vive, isso de impregnar-se, transmudar-se, perder-se, tornar-se irreconhecível, e todo escritor que em algum momento já se sentiu um fantasma entre fantasmas, como um doido falando sozinho, também já deve ter se espantado com essas inimagináveis voltas da vida.

Mariana Ianelli

Nasceu em São Paulo em 1979. Formada em jornalismo, mestre em literatura e crítica literária, estreou na poesia em 1999 com Trajetória de antes. Em 2013, estreou na crônica com Breves anotações sobre um tigre. É também autora de dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no Rascunho. Escreve quinzenalmente, aos sábados, na revista digital de crônicas Rubem.

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