Quando a gente morre, é como quando a gente ainda não nasceu? Foi a pergunta da minha filha, outro dia. Queria logo dizer sim e apostar nessa imagem da poeira que o vento varre até apagar todo rastro de breve vida vivida entre duas longas inexistências. Tão bonito pensar assim, tão libertador. Bem que podia ser, minha filha. Na falta de um ótimo rastro durável, desses que reflorestam desertos e dignificam paisagens, que não ficasse mesmo rastro algum.
Mas são tantas pegadas que não se desfazem… que levam gerações manchando o chão e só desbotam. Tantos legados que são velhos fardos de conteúdo radioativo, que continuam irradiando seu brilho mau em noites novas. Também o contrário, e talvez não menos raros, somente mais secretos, legados que são como amuletos da sorte, que varam milênios e não perdem seu frescor de bom feitiço. Yolanda vai aprendendo a ler o mundo nesses rastros, tantos os belos quanto os brutos, que contam a história dos que passaram e não se apagaram completamente.
Conversamos sobre as marcas brutas, que se avivam em feridas reabertas, o hediondo das guerras e das crianças de guerra, entre as quais está o avô paterno de minha filha quando garoto, ainda menor que ela, na Espanha de 1938. Falamos sobre o mal da indiferença, sobre a sempre renovada sujeira dos noticiários, palavras e pássaros lavados em petróleo. Depois conversamos sobre a morte, e numa tão destravada conversa, tão curiosa de possibilidades e já sedenta de alguma coisa bela, que combinamos de nossas poeiras se encontrarem, se os ventos forem favoráveis, lá pelo próximo século, em mar aberto, quem sabe no corpo de um peixe-viola. Pois assim ficou combinado entre nós, sem perder o tom da conversa, muito seriamente. Daqui a uns oitenta anos, nos vemos no oceano, meu amor.