Fogo em raio de alegria

Em meio a guerras e tragédias, a alegria da poesia, solitária ou em grupo, penetra no cotidiano e aquece a alma e os dias frios
Ilustração: Mariana Ianelli
15/08/2026

Tiemblan de viento sus alas,
de mi ventana lo miro.
No dejemos de cantar,
pájaro amigo.
Eduardo Langagne

A terra está tremendo, os mares estão cuspindo gente, os vendavais espiralando em tornados viandeiros, e um urubu badala o sino de uma igreja colombiana puxando a corda pelo bico. Não apesar disso, mas em meio a isso, de tornados e terremotos e urubus videntes, alguém é atingido por uma alegria. Bem assim disse Daniel Munduruku, outro dia: “Fui atingido por uma alegria”. Achei tão verdadeiro ele dizer dessa maneira, tão carne da vida a bordo de um planeta cruento e lindo. No meio da fumaça, da chuvarada de granizo, dos edifícios que bambeiam feito vara verde em terra instável ou sob bombardeio, uma alegria — incorrespondente com o ar da época — nos atinge. Algum raio acerado que vara a fibra dos escudos como uma ponta de estrela. Alguma alegria de espécie esplandecente. Algum brilho dissonante, daqueles impossíveis de não ver. Aconteceu também comigo dias atrás, num grupo de poesia. Éramos quase vinte, sentados em roda, fazendo fogo no meio de uma tarde fria. Cada um alimentando esse fogo com sua ponta de estrela. Nos reunimos assim por três dias, três tardes frias, no IV Festival da Palavra de Curitiba. Enquanto isso, o noticiário anunciava a chegada de um ciclone bomba. Que excelente recorte da vida viva, um ciclone bomba chegando e nós sentados ali, em roda, fazendo poesia! Uma estrela de quase vinte pontas raiando me atingiu. Diz um poeta dos nossos tempos que é preciso que os aviões de guerra se calem para que ele possa ouvir os pássaros e escrever um poema não político. Mas, se os aviões de guerra não se calam, se os aviões de guerra levam ainda muito horror até que se calem, se os pássaros são inaudíveis e o século ele mesmo é todo político, cantemos nós, sem muita explicação, cantemos e escutemos uns aos outros a cantar, que isso será o fogo de outra guerrilha. Não apesar do ciclone bomba, mas em meio a ele, essa alegria diamantina, pontiaguda, radiante. Essa alegria.

Mariana Ianelli

Nasceu em São Paulo em 1979. Formada em jornalismo, mestre em literatura e crítica literária, estreou na poesia em 1999 com Trajetória de antes. Em 2013, estreou na crônica com Breves anotações sobre um tigre. É também autora de dois livros infantis. Desde agosto de 2018, edita a página Poesia Brasileira no Rascunho. Escreve quinzenalmente, aos sábados, na revista digital de crônicas Rubem.

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