Recomenda-se bem quente ou bem gelado, nunca morno. O efeito não será imediato, antes é preciso tomar gosto. A pessoa continuará a existir, apenas sem ser vista ou notada. Já experimentou? Você pode incluir esse chá nos eventuais remansos de fim de tarde. Não será daqueles chás alucinógenos, com rito ou tabu em torno da coisa, mesmo assim, é provável que, depois de algum tempo, a experiência repetida e acumulada também lhe conceda estranhas visões e um minimalismo de gestos rituais. Prove, saboreie, sinta como vai fugindo todo devaneio de importância. Então o raio que cai na floresta, sem testemunha além da própria floresta, será como um amigo esplendoroso. Longe de olhos humanos, os olhos dos bichos também serão como amigos. Você verá outro mundo maior, de que não se tem ciência nem registro. Um mundo cheio de energia, em recantos ignotos, exuberando para ninguém. Indetectável, camuflada, a vida toda integrada a seu microscópico e miraculoso evento. Orquídeas roxas no breu fechado dos mangues, ninhadas de arminhos encantadores na neve, escondidos balés de águas-vivas fluorescentes. Desde sempre, imensos desperdícios de mel, luz, viço, graça, poema. Desde sempre, muito mais esbanjamento do que bom proveito. Tem um gosto assim, de coisa esbanjada, esse chá, quando tomado bem gelado ou bem quente. Experimente. Aproveite. Desapareça nesse mundo maior das coisas não percebidas em sua existência. Sinta quanta energia disponível, quanta vida, quanta graça se fazendo sem notícia, longe de olhos humanos, a incomparável exuberância e generosidade da companhia.