🔓 Imprecisão eloquente

Isolados em nossas casas pela pandemia, fomos obrigados a imergir como nunca antes no universo virtual. Onde o tom de voz perde a nuance, o abraço é só um ícone
07/10/2020

(07/10/20)

Em junho de 2011, com a câmera pendurada ao pescoço, o filósofo Georges Didi-Huberman foi a Auschwitz-Birkenau. Passavam-se oito anos desde a publicação do livro Imagens apesar de tudo, no qual analisa quatro fotografias tiradas clandestinamente na zona do Crematório V por um dos prisioneiros.

Na revisita ao local onde foram assassinados milhares de judeus, homossexuais, membros das etnias sinti e roma, opositores políticos do Terceiro Reich, Didi-Huberman se depara mais uma vez com os tais retratos. As lápides expõem três fotos, não as quatro originalmente tiradas. Uma das imagens não passara no teste do “museu da memória”. Falta-lhe foco — e um objeto categórico. Na impossibilidade de posicionar o olho no visor, já que estava escondido, o fotógrafo voltou a lente para a floresta de bétulas. Captou as árvores com suas copas projetadas para o céu e a luz saturada daquele dia 4 de agosto de 1944. Nada dos fornos crematórios ou das vítimas da asfixia por gás.

“Para nós, que aceitamos examiná-la, essa fotografia ‘defeituosa’, ‘abstrata’ ou ‘desorientada’ testemunha algo que permanece essencial, isto é, o próprio perigo, o vital perigo de presenciar o que acontecia em Birkenau”, relata o filósofo. A imprecisão torna-se, assim, um signo eloquente.

Lembro do texto de Didi-Huberman enquanto escrevo esta coluna de estreia no novo site do Rascunho. Embora seja possível, até natural, falar de terror quando o mundo se vê tomado por um vírus que já matou mais de um milhão de pessoas, a evocação da narrativa sobre Auschwitz-Birkenau ganha aqui outro propósito.

A crônica, para nossa sorte, se presta a transições radicais. É um gênero que atravessa as fronteiras sem passaporte ou carimbo. Como dizia Antonio Candido, trata da vida ao rés-do-chão. E pode se definir justamente nessa falta de decupagem muitas vezes enxergada como defeito.

“Há superfícies que transformam o fundo do que está ao redor”, escreve Didi-Huberman. Ele se refere, agora, à casca das árvores. À matéria irregular, acidentada, que enuncia a contingência de todas as coisas.

Isolados em nossas casas pela pandemia, fomos obrigados a imergir como nunca antes no universo virtual. Onde o tom de voz perde a nuance, o abraço é só um ícone, a virtude vira autocongratulação ou julgamento sumário. Onde a perfeição é desejável e parece fácil. Mas nossas cascas, aquelas que enterramos sob o suntuoso tronco feito de pixels, gritam pelo escape. Querem voar, contingentes e exuberantes em sua impureza.

Num tempo em que o adorno se mantém à palma da mão, em que editamos nossas vidas ao sabor de filtros, recortes, regulagens, talvez a imagem recusada pelo campo de concentração vertido em museu tenha algo a nos dizer.

Marcelo Moutinho

É autor dos livros  A lua na caixa d’água (Prêmio Jabuti 2022), A palavra ausente (2022), Rua de dentro (2020), Ferrugem (Prêmio da Biblioteca Nacional 2017), Na dobra do dia (2015), e dos infantis Mila, a gata preta (2022) e A menina que perdeu as cores (2013), entre outros.

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