Estou em um café ao lado de uma pequena livraria em Ipanema. Um cantinho que tomo para mim em uma manhã roubada da rotina. Venho para a mesa de fora porque do lado de dentro dois homens falam alto. Quero silêncio. Trouxe para a leitura do momento: Quand tu écouteras cette chanson, de Lola Lafon, um livro premiado, lindo, que fala sobre a noite que a escritora em questão passou no Anexo, em Amsterdã, na casa clandestina de Anne Frank.
Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.
Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.
Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?
Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.