Onde estão os leitores?

Num café de Ipanema, o mundo parece distraído pelas telas, enquanto a leitura silencia e resiste como gesto raro e essencial
Ilustração: Italo Amatti
01/03/2026

Estou em um café ao lado de uma pequena livraria em Ipanema. Um cantinho que tomo para mim em uma manhã roubada da rotina. Venho para a mesa de fora porque do lado de dentro dois homens falam alto. Quero silêncio. Trouxe para a leitura do momento: Quand tu écouteras cette chanson, de Lola Lafon, um livro premiado, lindo, que fala sobre a noite que a escritora em questão passou no Anexo, em Amsterdã, na casa clandestina de Anne Frank.

Ela reconta toda a caminhada da família até a clausura. Os preparativos, a corrida pelo “essencial”, os livros, a organização para que as meninas estudassem, lessem, não se afogassem nas horas vazias… Enquanto leio, observo o entorno da livraria. Ninguém lê. O gesto de pegar um livro e se manter em silêncio, imerso em um mundo distante, me parece cada vez mais raro. A moça na mesa da frente toma conta de duas crianças e está afogada na tela. As crianças relutam entre o desenho e… as telas. As senhoras dentro do café chegaram agora. Retomam a conversa do mês, e não há indícios de que sejam leitoras.

Por que digo isso? Estou em uma área de elite. Um dos bairros mais caros do Rio. E ninguém lê. Não vejo uma viva alma disposta a se acomodar em um canto, fazer silêncio e imergir em um mundo de papel. A moça da mesa da frente mostra com entusiasmo a viagem de sua médica por um país que ela logo identifica. Está radiante ao ver a viagem da outra. Isso basta.

Apontamos o dedo para as infâncias longe dos livros, mas o que fazer com os adultos? Uma causa perdida? Por onde tocar a sensibilidade para que tenham o gosto da leitura, que não é hábito, é prazer e ponto? Confesso que não sei. Talvez a gente tenha que agir mesmo no terreno da infância e ajudar as crianças a entender que a leitura está, sim, entre as coisas mais essenciais da vida. É um processo lento, envolve todos que, de alguma forma, trabalham e vivem entre os livros. Vamos nessa?

Retomo a minha viagem. Que livro lindo o de Lola Lafon. Que experiência sem medida é poder viajar para dentro de outras sensibilidades e situações sem sair do meu cantinho, um café simpático ao lado de uma bela livraria de bairro.

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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