Quem já não fez aquelas malas de fuga quando criança? Eu tinha umas frasqueiras prontinhas para “o dia em que a casa pegasse fogo”. Havia uma certeza de que eu teria que escapulir rapidamente em algum momento e que, por isso, meus itens mais importantes precisavam estar separados. Entre eles, alguns objetos imprescindíveis como meu prendedor de cabelo e uma das minhas conchas maiores.
Com o pensamento crescente de que o mundo poderia acabar a qualquer momento, me vi outro dia separando velas, quem sabe para um apagão repentino. Sem eu mesma saber por antecipação, meu inconsciente me preparava para um novo enclausuramento?
Não entendi direito meus pensamentos, mas, de vez em quando, me pego separando coisas para quando o mundo acabar. Pegar fogo? Escurecer para sempre?
O escritor — e, por extensão, o artista em geral —, em um mundo apocalíptico, sente-se talvez alguém imprestável. O planeta em guerra, e a gente sentado em um domingo, imerso na escrita e em todo um outro mundo que se constrói ali dentro, com as palavras…
Ao mesmo tempo, talvez seja justamente esse refúgio do humano — a imaginação, a criatividade — a nossa única salvação. Como o músico tocando nos escombros no Irã ou a menina brincando de balanço com as bombas ao fundo… uma artista da esperança.
Não temos como prever o que virá. Sabemos que não podemos deixar de ser quem somos. E o escritor é aquele que precisa criar e apostar que suas palavras serão ouvidas de algum modo. Ainda tenho as bolsas de fuga imaginárias. Elas fazem parte da minha bagagem humana, que hoje transformo em literatura. Dentro delas, coloquei algumas velas e também a concha maior que sobrou da infância.