Janeiro se arrasta em um tempo diferente do resto do ano. Os dias têm uma lentidão estranha. É como se as horas escorressem em conta-gotas. Quando o mês acaba, o tempo volta a acelerar, e já estamos perto de dezembro antes de passar por maio.
Enquanto dura o janeiro eterno, ficamos travados nesse corredor comprido de chinelos ou sob o sol. Não importa. Em casa ou em viagem, o tempo é lento. Janeiro também é mês de promessas e fórmulas mágicas: água morna com limão, jejum intermitente, cadernos novos de florzinha no escritório, uma versão melhorada de nós mesmos nos planos ou no horizonte. A maioria desses planos desaparece antes do carnaval…
Janeiro é mês das ruas mais silenciosas, menos carros. Chegamos a esquecer como é infernal o engarrafamento diário. Há um vazio estranho nas esquinas e um excesso de pensamentos dentro de casa. Janeiro amplia os ruídos internos e o que ficou mal resolvido. É o mês em que a memória resolve fazer uma faxina geral. O que vai valer a pena guardar para o ano que começa? O que posso esquecer, superar, doar?
É o mês de rever as fotos do Natal e sentir aquela pontada de dor quando vemos que talvez alguns que estão na foto não irão sobreviver ao Natal seguinte… As festas de fim de ano encerram o tempo do otimismo exagerado, a adrenalina das compras e a comilança justificada. Janeiro parece um feriado de 31 dias.
Os dias parecem mais claros porque realmente estão. São mais longos porque estamos prestando atenção aos ponteiros. Coisa rara são os ponteiros. Quase nunca olhamos para eles, já que nos tornamos digitais. A geração sem ponteiros, que não sabe ver as horas se não for no celular. O tic-tac fala de um tempo que vai acabar em breve. Quando o ano realmente começar, vamos nos esquecer desses grandes relógios lentos e suspensos.
Depois, fevereiro chega com pressa, e a vida retoma sua velocidade habitual. Em março, as agendas recomeçam, os compromissos se multiplicam, ufa, já já o ano acaba. Dezembro logo ali com os enfeites das lojas… Que cansaço! Aí volta a saudade da melancolia de um janeiro sem pressa…
Janeiro não é um mês. É um estado de alma. Precisamos dessa paz, mesmo que com um gostinho gris tropical.