Fronteiras literárias

A tradução de um livro para o espanhol revela como palavras, personagens e sentimentos atravessam fronteiras e encontram novas vidas em outras línguas
Ilustração: Eduardo Mussi
01/11/2026

Quando a gente descobre que as nossas palavras ganharam uma segunda vida em outro idioma, é uma alegria sem tamanho. É como se os personagens arrumassem as malas e atravessassem fronteiras.

Recentemente, vivi essa alegria com a tradução para o espanhol do meu livro juvenil Amor de longe, realizada por estudantes de Tradução e Interpretação da Universidad Peruana de Ciencias Aplicadas, em Lima, no Peru. Saber que jovens leitores e tradutores se debruçaram sobre minhas frases, procurando equivalências, sentidos e nuances, foi um presente para mim.

Traduzir não é simplesmente trocar palavras de roupa. É transportar atmosferas, preservar silêncios, encontrar uma nova casa para sentimentos que nasceram em outra língua. Um trabalho delicado e amoroso. É preciso amar muito a língua de saída e a língua de chegada. Amar as gramáticas.

A literatura, tão ligada à intimidade de quem escreve, tem uma vocação imensa para o mundo. Escrevemos a partir de um lugar muito particular, de nossas lembranças, inquietações e fantasias, mas nunca sabemos até onde uma história poderá chegar. Eu não poderia imaginar que este livro de 2017 fosse encontrar agora leitores de espanhol…

Ficou linda a tradução. É bonito demais ver essa travessia. É uma língua vizinha, irmã e cheia de encantamento. Leio meus personagens conversando em espanhol, descobrindo novas maneiras de dizer o amor, a saudade, a distância… Amor de lejos.

O livro está traduzido e revisado, à espera de uma editora que o acolha, mas a parte mais importante da viagem já aconteceu. Minhas palavras saíram de casa, foram recebidas, estudadas, interpretadas e recriadas por outras pessoas. Uma conquista imensa: a travessia de uma fronteira literária.

Os livros também têm seus destinos migratórios…

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira e Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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