Quando a gente descobre que as nossas palavras ganharam uma segunda vida em outro idioma, é uma alegria sem tamanho. É como se os personagens arrumassem as malas e atravessassem fronteiras.
Recentemente, vivi essa alegria com a tradução para o espanhol do meu livro juvenil Amor de longe, realizada por estudantes de Tradução e Interpretação da Universidad Peruana de Ciencias Aplicadas, em Lima, no Peru. Saber que jovens leitores e tradutores se debruçaram sobre minhas frases, procurando equivalências, sentidos e nuances, foi um presente para mim.
Traduzir não é simplesmente trocar palavras de roupa. É transportar atmosferas, preservar silêncios, encontrar uma nova casa para sentimentos que nasceram em outra língua. Um trabalho delicado e amoroso. É preciso amar muito a língua de saída e a língua de chegada. Amar as gramáticas.
A literatura, tão ligada à intimidade de quem escreve, tem uma vocação imensa para o mundo. Escrevemos a partir de um lugar muito particular, de nossas lembranças, inquietações e fantasias, mas nunca sabemos até onde uma história poderá chegar. Eu não poderia imaginar que este livro de 2017 fosse encontrar agora leitores de espanhol…
Ficou linda a tradução. É bonito demais ver essa travessia. É uma língua vizinha, irmã e cheia de encantamento. Leio meus personagens conversando em espanhol, descobrindo novas maneiras de dizer o amor, a saudade, a distância… Amor de lejos.
O livro está traduzido e revisado, à espera de uma editora que o acolha, mas a parte mais importante da viagem já aconteceu. Minhas palavras saíram de casa, foram recebidas, estudadas, interpretadas e recriadas por outras pessoas. Uma conquista imensa: a travessia de uma fronteira literária.
Os livros também têm seus destinos migratórios…