A primeira vez que eu li em voz alta para alguém, eu tinha sete anos. Esse alguém se chamava Adélia, que seria a minha professora caso eu passasse naquela “prova” de leitura. Só entrava para o primeiro ano da escola quem segurasse a onda de ler uma página inteira — em voz alta, diante da quase futura professora Adélia.
Até aquele momento, aprender a ler tinha sido um exercício silencioso de que eu gostava bastante. Ler em voz alta era um gesto maior e de mais responsabilidade social; era dar uma existência física ao texto de um escritor. Eu não me lembro de qual.
A professora não me interrompeu. Apenas ouviu com atenção. Eu me incorporei ao teatro da leitura. Ali eu era uma estrela. Nada me faria brilhar mais do que mostrar que eu sabia ler e muito bem. Se o teste fosse fazer contas ou dizer onde fica no mundo algum país, provavelmente eu seria um fiasco àquela altura. Mas ler…
Secretamente, eu já sabia que, ao final do meu espetáculo, teria a meu dispor a minha carteira e que Adélia seria a minha professora.
A cena é uma daquelas ilhas da memória que acompanham a gente pela vida afora. Eu sozinha diante da “juíza”, em um colégio gigante que deixaria para trás meu coleginho de infância… Entrar ali era entrar em um portal. Eu mostrei que tinha magia para isso…
Ler em voz alta tem mesmo algo de mágico. A gente toca em cordas invisíveis, que se espalham por um ambiente inteiro. Podem chegar a ouvidos que nem imaginamos que estejam atentos… A gente aguça os próprios ouvidos para o que temos a dizer ao mundo.