A menina com um livro na mão

Um gesto aparentemente simples atravessa o tempo, inaugura afetos, desperta leituras e mostra como palavras podem, silenciosamente, mudar destinos
Ilustração: Eduardo Mussi
04/01/2026

Alguns gestos fazem parte da nossa memória visual e nunca desaparecem do mapa da mente. De vez em quando surge, na minha frente, a imagem da menina que se chamava Alessandra. Ela está com um livro na mão. Tem 12 anos e, todos os dias, traz um livro, que efetivamente lê nos espaços entre uma aula e outra. Baixinha, olhos muito azuis, cabelo enrolado. Sempre sorrindo. Um dia ela escreveu um poema de Ferreira Gullar no meu caderno de despedida — eu estava saindo daquela escola e pedi que os colegas deixassem seus registros. Ela deixou um poema.

A leitura é assim: passa de mão em mão como um anel mágico. A gente pensa que ninguém nos observa lendo, falando de livros ou sugerindo livros. Pode parecer um combate solitário no deserto, sobretudo em um país que perde leitores diariamente — um país não, um mundo cada vez menos leitor. O que não se deve fazer é desistir, fazer tombarem os livros, devolver as armas. Um gesto, uma frase, um poema podem, sim, mover moinhos, modificar a trajetória de uma pessoa.

Aos 12 anos, eu não conhecia Gullar nem seus poemas. “Menina branca de neve”, um verso do poema Cantiga para não morrer, foi um trecho do presente que Alessandra me deu. Como esquecer? O poema foi um gatilho para que eu quisesse conhecer não só o autor dos versos como outros autores, outros versos. A chave virou. Fui abrindo as portas e querendo saber mais e mais. Claro que não foi a garota com o livro na mão, isoladamente, a motivadora de todo o processo, mas ela foi um grande incentivo.

Repito o gesto ao falar sobre livros, insisto na leitura por onde vou. Um desafio e tanto, e às vezes bate aquele desânimo. Mesmo assim, vamos seguir. As Alessandras-Quixotes vão surgir no horizonte, segurando os livros que realmente gostam de ler. Vamos hoje escrever um poema para alguém e começar o ano com mais amor?

Um feliz 2026 para vocês que me acompanham, me leem e fazem acreditar que meu gesto de escrita vale a pena. Sempre vale.

Claudia Nina

É jornalista e escritora, autora dos infantis A barca dos feiosos, Nina e a lamparina, A repolheira Ana-Centopeia, entre outros. Publicou os romances Esquecer-te de mim (Babel) e Paisagem de porcelana (Rocco), finalista do Prêmio Rio. Assina coluna semanal na revista Seleções. Seu trabalho mais recente é a participação na antologia Fake fiction (Dublinense). Alguns textos da coluna da Seleções estão no seu podcast, disponível no Spotfy, lidos pela própria autora.

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