Uma velha novela e outra nova

As alegrias de revisitar a trajetória literária: uma história vitoriosa e fecunda de flechas, bons disparos, flores e frutos
Detalhe da capa da novela “Os nove pentes d’África”
05/01/2024

A releitura de um texto que completa quinze anos de publicação, no qual você encontra doze deslizes entre o refinamento de um nome, um tempo verbal que não está errado, mas pode ser melhorado, advérbio e adjetivo eliminados, uma ou outra palavra substituída por sinônimos, singulariza encontro balsâmico entre a escritora de ontem e a de agora. Foi o que aconteceu ao revisitar minha novela Os nove pentes d’África, um livro que conta com 250 mil exemplares em circulação e segue aquecendo o catálogo de sua casa editorial.

De início, temi, duvidei do que havia escrito para essa gente toda, principalmente para a gente miúda das escolas, setor mais significativo do público leitor da obra ao longo desses anos. Tive medo de não me reconhecer ou de encontrar uma escritora imatura, de quem eu me envergonhasse ou me arrependesse de ter sido. Na disso, ufa! Garimpei ali pistas consistentes da escritora que sou hoje; melhorei também em aspectos mais frágeis, a saber, alguns escorregões nos diálogos e certa pressa narrativa que, com o passar dos anos, converti em agilidade textual.

Assumo que em alguns pontos eu poderia ter me detido mais, talvez pudesse ter criado imagens bonitas e sonoridades internas mais frequentes, mas não me arrependo de nada. O melhor de tudo foi não ter encontrado problemas estruturais que exigissem revisão e reescritura.

Passados quinze anos publico uma nova novela, Atlânticos em transe sob a lua de Luanda, um projeto online, distribuído semanalmente em capítulos. Depois da revisão ortográfica, ainda pedi à editora que alterasse a ordem de quatro parágrafos na página de abertura. Começar bem é mandatório e entendi que o reordenamento daria ao texto um início mais instigante e mexeria com o fôlego do leitor. Há mais tempo havia reorganizado os capítulos, Os quintalões passou de segundo para primeiro capítulo, pois gozava de uma força tsunâmica que merecia abrir a publicação.

O texto registra algumas impressões ficcionais da primeira viagem tardia que fiz a Angola, segundo país que conheci no continente africano, depois da África do Sul. Foram apenas cinco dias em Luanda e ainda pegamos um feriado que deixou a cidade vazia e o comércio fechado, mas sorvi cada minuto, como quem mata uma sede antiga.

Atlânticos em transe sob a lua de Luanda registra uma memória ficcional do primeiro e definitivo encontro com a minha origem. É de lá que eu vim, é o que meu coração me disse, à revelia de qualquer estudo genético.

Duas novelas entre vinte e dois livros publicados ao longo de dezessete anos. Mais do que números, uma história vitoriosa e fecunda de flechas, bons disparos, flores e frutos. Um bom começo de ano novo nesta trajetória minha no tempo espiralar de uma mestra querida, Leda Maria Martins.

Cidinha da Silva

É escritora e doutora em Difusão do Conhecimento. Publicou 21 livros, dentre eles, os premiados Um Exu em Nova York e O mar de Manu.

Rascunho