Traduzir a imaginação

“A louca da casa”, de Rosa Montero, possibilita uma reflexão sobre imaginação, memória e tradução como operações que constroem sentidos entre realidade e ficção
Rosa Montero, autora de “A louca da casa”
01/01/2026

A louca da casa, de Rosa Montero, é uma obra peculiar, mesclando ensaio, ficção e textos (auto)biográficos (ficcionais ou não). O leitor se enreda facilmente na trama armada por Montero, perdendo-se nos limites entre a suposta realidade e a ficção. O livro convida o leitor a fazer interpretações críticas e “desconfiadas” não apenas do texto da autora espanhola, mas da literatura em geral e de suas próprias escrituras e memórias. O livro tem tradução convincente para o português, de Paulina Wacht e Ari Roitman.

Muitas relações se podem fazer entre o texto de A louca da casa e o campo da tradução. Montero se aprofunda nas tensões naturais que se formam entre realidade, interpretação da realidade, memória e ficção. É um terreno em que a operação tradutória sobressai como solução possível de construção de vínculos e viabilização de comunicação.

O questionamento da realidade como algo claramente identificável e pacificamente interpretável é um dos elementos fortes do texto de Rosa Montero. O papel de relevo concedido à imaginação — a “louca da casa” — é um dos aspectos vinculados a essa posição contestatória.

Uma frase de Montero talvez resuma todo o problema em jogo: “A realidade não passa de uma tradução redutora da enormidade do mundo, e o louco é aquele que não se adapta a essa linguagem”. A sentença implica um conceito de convenção social que norteia essa tradução e que determina a exclusão daqueles que dela se desviam. Há aqui dois jogos simultâneos, que se entrelaçam: um deles entre imaginação e loucura, que a autora espanhola explora muito bem; e outro entre a realidade e sua descrição (redutora). Trata-se de embates que muito fazem para enriquecer e tornar a literatura — e sua tradução — algo dinâmico e fascinante.

Outra vertente que Rosa Montero trabalha com esmero é a relação entre realidade, passado e lembrança. A escritora espanhola propõe, em A louca da casa, três relatos distintos de um mesmo acontecimento (real ou ficcional) que fazem o leitor, baratinado, revirar as páginas do livro para ver se algo lhe havia escapado. Foi uma forma criativa de apontar — de maneira talvez hiperbólica — como as lembranças podem ser fluidas e cambiantes; e como a ficção pode erigir realidades.

Esses três textos nos fazem pensar em como se produzem, na mente, as diferentes construções da memória, atravessando filtros (traduções) diversos a partir de uma realidade percebida conforme circunstâncias e pontos de vista tantas vezes alheios ao controle do sujeito. Montero sublinha as formas diferentes que podem assumir, a partir de uma mesma realidade, as lembranças de duas pessoas próximas; e também aponta que as lembranças de uma mesma pessoa não são estáveis, variando em conteúdo e intensidade ao longo do tempo.

São fatos da vida que muitas vezes passam despercebidos, em razão da propensão humana a crer em certa homogeneidade de percepções e na estabilidade da memória. Com os textos e suas diferentes interpretações acontece fenômeno semelhante, no qual reinam dispersão e inconstância.

Outro aspecto que pinço de A louca da casa é a visão de Rosa Montero sobre ideias e palavras, em relação à produção textual. Na ladeira descendente que nos leva das ideias às palavras, a autora frisa o enrijecimento que representa essa tradução: “Uma ideia escrita é uma ideia ferida e escravizada…”. Não parece, contudo, haver escapatória. Pode até ser uma estampa do vento, mas não há comunicação sem isso — e a tradução é seu instrumento. Por outro lado, o caráter “manhoso, rebelde e fugidio” das palavras, na conceituação da escritora espanhola, recria todo um novo espaço para a imaginação, que de certa forma compensa a cristalização que houve na redução da ideia. Tudo é tradução.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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