Corneille: pintura e tradução

Reflexões de Marcel Paquet sobre a pintura de Corneille iluminam a tradução intersemiótica e revelam paralelos profundos com a tradução literária
Marcel Paquet, filósofo belga
01/02/2026

Marcel Paquet, filósofo belga, escreveu em 1987 um breve texto sobre as implicações filosóficas da pintura de Guillaume Cornelis van Beverloo, artista plástico holandês, nascido na Bélgica, mais conhecido como Corneille. As reflexões de Paquet sobre a obra de Corneille suscitam, por sua amplitude e profundidade, considerações sobre a tradução intersemiótica e — por que não? — sobre a própria tradução literária.

Paquet discorre sobre a função da pintura artística, apontando para a necessidade de que a obra original — ou um estilo original — adicione novo elemento ao campo do visível ou, no caso do estilo especificamente, passe a condicionar a maneira de enxergar certos lugares, cenas e sujeitos. Trata-se, então, de propor novos significados, agregando sentidos inéditos a objetos habituais.

O filósofo belga também aponta uma dupla orientação da arte pictórica, que envolve, por um lado, destacar partes e características do visível que, embora presentes, não sobressaem naturalmente; e, por outro, revelar referências que se ocultam sob o visível.

A função da literatura percorre trilha similar, ao propor formas inauditas de captar a realidade e, sobretudo, elementos originais ao campo da leitura, da cultura e do entendimento. Enfim, nas artes plásticas como na literatura, criam-se não apenas novas formas de enxergar o concreto, mas novos objetos de conhecimento, acrescentando-se assim camadas de percepções e reflexões à experiência humana.

A tradução opera nessas duas artes, mas especialmente na área exclusivamente linguística, tanto como ferramenta de ampliação universal de seu alcance quanto como instrumento de criação de novos significados. Num olhar mais operacional sobre o funcionamento da linguagem, a tradução agrega formas sintáticas inovadoras ao idioma de chegada, além de natural carga vocabular adicional.

Ao tratar mais especificamente da obra de Corneille, o filósofo comenta que uma das características do pintor é retratar a diferença entre o sensível e o visível, ou, em linguagem filosófica, entre o naturante e o naturado. Essa diferença é justamente o retrato da tradução, que opera entre os dois níveis e faz a ponte entre eles, como ocorre também no caso, mais frequente nas reflexões sobre a tradução linguística, da relação entre o Verbo (sensível, latente) e a escritura (visível, explícita).

Argumenta ainda Paquet que os dois polos dessa diferença não se encaixam perfeitamente, “como duas metades de uma maçã”. Representariam, na verdade, faces inconciliáveis, embora vinculadas, de uma mesma possível realidade. Uma delas continuamente em potência; outra, a imagem fugidia e imperfeita daquela no espelho. Transitando para o campo da linguagem, temos a potência (palavra falada) corporificada — ainda que de maneira aproximada e transitória — na escrita.

Apreender essa diferença e saber expressá-la de maneira competente, como julga Paquet fazer Corneille em seus quadros, é tarefa das mais complexas e, mesmo diante da mais sólida argumentação, uma aposta sempre contestável. Assim como a própria tradução, justamente essa diferença, é também sempre sujeita a todo tipo de questionamento e crítica, mesmo quando empreendida de maneira criteriosa, mesmo quando trabalhada com eficiência e inventividade.

É impossível expurgar totalmente o elemento subjetivo, seja na pintura, seja na literatura. Sempre sobra um resto que será objeto de controvérsia. Sobra sempre um resto que constituirá a própria razão de ser da tradução e que dela exigirá ação contínua. Nas artes plásticas como na literatura olhares, leitores e apreciadores estarão em constante movimento inquieto, esquivo, imprevisível.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

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