O Fernando Pessoa que encontramos no Livro do desassossego é verdadeiramente demolidor, em vários sentidos, inclusive em razão das desconcertantes reflexões que encontramos sobre a escrita, a literatura e as relações entre pensamento e linguagem, entre realidade e sua transposição em texto. São também diversas as passagens e os conceitos que, dispersos na obra, nos remetem à tradução.
Trata-se de um livro bastante peculiar, somente publicado várias décadas após a morte do autor português. Composto por textos soltos, principalmente em forma de diário sem datas, a obra foi publicada de maneiras distintas, inclusive no tocante à ordem dos escritos. É, portanto, resultado de edição superlativa, implicando definições que normalmente caberiam ao autor.
Por falar em autor, o livro é atribuído por Pessoa a dois de seus (semi)heterônimos — Bernardo Soares (diário), principalmente, mas também Vicente Guedes (apêndices). No que representa o núcleo da obra, o poeta empreende, como em vários de seus escritos, a tradução/transcriação de si ou parte de si num personagem/autor. A publicação inclui também, do próprio ortônimo, textos refletivos e ancilares (cartas e notas, que incluem, por exemplo, indicações de como deveria ser editado o livro).
Reitero: Pessoa se apresenta demolidor nessa obra. Demolidor, principalmente, pela densa carga de reafirmação, em várias formas distintas, em níveis diversos, do “ceticismo do inteligível”. O poeta desconfia da viabilidade da comunicação humana: “Ninguém compreende outro. […] Por mais que uma alma se esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma palavra — sombra disforme no chão do seu entendimento”. Questiona os instrumentos disponíveis para essa comunicação. A palavra engana, por implicar tradução distorcida; uma plena compreensão mútua não passa de ilusão, ainda que ilusão necessária.
A expressão verbal, a linguagem, falada ou escrita, o instrumento de interlocução, é essencialmente falho, apesar de aparentemente insubstituível. Mas Pessoa vai além da mera falha. Algo de deliberado aparece nesse processo, como que um despertar. Ou, talvez, um alerta do poeta. “Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.”
Pessoa insiste no tema, em outros trechos da obra. Em certa passagem, em especial, no diário de Bernardo Soares, lemos formulação mais explícita: “A mentira é simplesmente a linguagem ideal da alma […] nos servimos da mentira e da ficção para nos entendermos uns aos outros, o que, com a verdade, própria e intransmissível, se nunca poderia fazer”.
Sugere-se aqui rendição diante de uma impossibilidade: sendo impraticável transmitir a verdade, deve-se aceitar que o padrão de comunicação é sempre a mentira, deliberada ou não. A tradução do sentimento individual, singular — irremediavelmente falha — transparece como mensagem truncada ou equivocada, espelhando, portanto, o que percebemos também, com maior ou menor resignação, na versão de um texto para outra língua.
Na mesma toada, Pessoa persiste na desmontagem dos alicerces da linguagem, afirmando que as palavras — “sons articulados de uma maneira absurda” — nunca poderão “traduzir os mais íntimos e sutis movimentos da emoção e do pensamento”.
Há tom de derrota no ar, de impotência diante do impossível. De adoção convicta e enfática do conceito de “ceticismo do inteligível”. Mas há também a proposta de uma fuga positiva e criativa, que de certa forma implica renúncia à realidade absoluta. O alheamento do concreto. Um retiro para o plano da ilusão, que, enfim, pode significar também reinvenção e redenção: “…sou enfim feliz porque regressei, pela recordação, à única verdade, que é a literatura”.