A viagem de Hamlet

A existência de distintos “originais” de Hamlet acrescenta uma dificuldade a mais para o tradutor, que se vê obrigado a definir o “seu” original
Laurence Olivier interpreta Hamlet, no clássico filme de 1948
01/03/2026

Seguro nas mãos um exemplar de Hamlet, com tradução, introdução e notas de Lawrence Flores Pereira. Penso na trajetória que atravessou para chegar até aqui. Um enredo — cujo original se perdeu — contado por tanta gente e de tantas maneiras diferentes, até cristalizar-se na versão de William Shakespeare. E depois vários ciclos de traduções, inclusive para o português brasileiro, até chegar a essa versão de Flores Pereira. Um longo percurso. Tantas traduções.

Essa edição em português, publicada em 2015, é bem escorada em textos ancilares produzidos pelo tradutor, incluindo introdução em que analisa a obra de Shakespeare, indicando, entre outros vários e valiosos elementos, o longo e sinuoso itinerário de Hamlet nas mãos de outros autores em diferentes épocas e lugares. Flores Pereira também discorre sobre as diferentes edições do original, em Nota sobre o texto, apontando em que fontes baseou seu trabalho, além de tratar especificamente de sua versão, em Nota sobre a tradução.

Além disso, a edição traz quase 120 páginas de notas do tradutor sobre pontos específicos do texto, reunidas no final do volume. Nessas notas, o tradutor explica passagens do texto, detalhes do enredo, o contexto dos diálogos e das cenas, características dos diferentes níveis de registro e dos distintos tipos de jargões usados pelo autor; destaca os principais temas tratados, as alusões e vínculos com outras obras; registra e justifica as escolhas ou “recriações” feitas em sua versão para o português; comenta tradições e usos do período shakespeariano, além de hábitos e ritos sociais, crenças religiosas e crendices da época; explica provérbios empregados no texto; e menciona comentários de outros autores sobre o texto original.

A questão da definição do original, que mencionei acima, é fator importante em casos como esse, de texto clássico já bem afastado de nós no tempo. A existência de distintos “originais” do Hamlet shakespeariano acrescenta uma dificuldade a mais para o tradutor, que se vê obrigado a definir o “seu” original. No caso de Flores Pereira, o texto de origem foi construído com base na versão do crítico literário Harold Jenkins, com constantes cotejamentos com outras edições, tirando proveito, dessa forma, da rica tradição crítica elaborada ao longo dos séculos.

Em sua Nota sobre a tradução, Flores Pereira nos conta que procurou, em reescritura com o mesmo número de versos do original shakespeariano, registrar “a riqueza vocabular, o uso cuidadoso de inversões, as modulações poéticas capazes de produzir efeitos singulares, o uso de pronomes variados para assinalar registros, os termos médicos ou alquímicos e tantas outras peculiaridades”. Resume que buscou “atingir o nível de opulência linguística de Shakespeare”, ao mesmo tempo evitando que o texto final ficasse excessivamente formal e “pesado” para a encenação teatral.

Segundo o tradutor, a chave para mirar essa arredia combinação de forma, registro e conteúdo, ajustada à linguagem do teatro, foi o emprego “com liberdade” do verso dodecassílabo, em lugar do decassílabo. O tradutor explica que esse verso, com suas duas sílabas adicionais, lhe deu mais amplitude e espaço para verter, de maneira mais completa, os versos de Shakespeare.

O tradutor argumenta que a adoção de um verso mais longo lhe trouxe uma série de benefícios, tendo-lhe permitido lançar mão, com mais liberalidade, de toda a riqueza do português. Assinala também que o alexandrino abriu caminho para que evitasse ou reduzisse procedimentos de efeito negativo, como as contrações, a “pechincha de palavras” e o transbordamento de um verso no seguinte.

Flores Pereira adotou estratégia que aliou arrojo na meta de emular o original, atualizando-o, à amplitude de ação no aspecto formal. Estratégia de transcriação que bem se ajusta aos contornos de uma tradução convincente.

Eduardo Ferreira

É diplomata, jornalista e tradutor.

Rascunho