O tempo não parece ser o maior culpado — ele, claro, fez seu incansável trabalho: talhou no rosto vincos profundos, olheiras bestiais, entortou músculos, raleou o cabelo, fragilizou os ossos, destruiu os dentes, tornou lento o mover-se das pernas; o passo miúdo e incerto conduz um homem à beira do fim pelas ruas próximas à minha casa. Mas há, por trás daquele olhar assustado — sim, ele lembra um animal acuado no fundo da jaula —, a história de uma vida errática, repleta de alcoolismo, mentiras, ausências e violência. Agora, num dia de semana, quando o sol ilumina com fúria o fim da manhã, preciso provar que meu pai está vivo. É, aparentemente, uma tarefa simples e prosaica. Basta enquadrar aquele rosto esfacelado na câmera. O restante é um trabalho automático, realizado com método e lógica por algum alien aprisionado numa masmorra digital nas encostas do mundo: ele vai olhar para o meu pai, reconhecê-lo e enviar ao governo a informação: o sujeito está vivo. Com isso, numa pequena mágica da algaravia nas nuvens de mentira, a aposentadoria — valores quase desprezíveis — continuará a ser depositada todos os meses. Um dinheiro sagrado para o arroz, o feijão e a cachaça.
Estamos na garagem — um espaço vazio desde que o pai perdeu o carro devido a um acidente em que dirigia embriagado — para reconhecer que aquele corpo ainda vive. O sangue ainda percorre o labirinto sem Minotauro à espreita. Meu sobrinho, um homem órfão de pai ausente e de mãe morta, está ali ao lado, cabeceando no vazio de mais um dia. Somos três homens, de três gerações distintas, todos os três afundados em si mesmos. O pai mira a câmera; o dispositivo pede que enquadre melhor o rosto; movo-me com lentidão, na horizontal e na vertical, aproximo um pouco mais; o dispositivo se irrita e pede que o pai afaste o rosto; meu braço — uma grua trepidante — alonga-se, um polvo sem mar para acolher os movimentos. Enfim, o dispositivo captura (ou seria sequestra?) a foto do pai e a envia ao alien. A resposta é quase imediata: não deu certo. Ouço um urro nos céus. Vamos começar tudo de novo. O rosto do pai está enquadrado na elipse digital; não pode sorrir — seu sorriso escancararia um único e solitário dente na gengiva inferior; uma certa agonia me invade quando o pai abre a boca e vejo aquela ponta entre os lábios. Não tenho nojo, talvez pena ou raiva. Fazemos todo o processo de novo: aproxima o rosto, afasta o rosto, aproxima o rosto, afasta o rosto. Pronto. Mais uma vez não dá certo. O dispositivo pede que façamos a captura da imagem num lugar bem iluminado. Olho para o céu e vejo o sol de rachar, solitário, estático, à espera de nada. Encostado no muro, meu sobrinho apenas observa, sem esconder sua permanente indiferença em relação ao mundo ao redor.
Estou a ponto de desistir quando transfiro a missão ao pai. Durante todo esse tempo, fui uma extensão de seu corpo; meu braço transformou-se num ser debilitado. Não deu nada certo. Então digo, já num misto de raiva e impaciência: “segure firme, olhe para a câmera”. Sinto que se trata apenas de desespero — estamos condenados ao fracasso. As mãos do pai tremem; o corpo faz o que deseja; não obedece mais; é um cavalo chucro a desbravar um deserto, uma máquina sem controle. Diante da lente, as pálpebras também tremem, deslizam febris — borboletas assustadas — sobre os olhos miúdos. A velhice não é o problema. O trajeto até ali — até aquele momento ridículo e agônico — é o que conta. A história narrada é das mais desagradáveis. A impossibilidade de finalizar o processo de reconhecimento facial é desprezível se comparada às noites de urros ensandecidos, socos ferozes, chutes certeiros na mulher, nossa mãe, e em nós, seus filhos. Agora, o animal está entregue, exaurido pela tempestade de álcool que o atingiu durante a vida. Ao olhar sobre seu ombro, vejo meu reflexo na tela da câmera. Somos um esfarrapado duplo. Algo em nossos traços nos une, e isso me irrita. Com o passar do tempo, as linhas do meu rosto se assemelham cada vez mais às do pai. Uma espécie de maldição nos acompanha, mesmo eu tendo alcançado recentemente vinte e cinco anos livre do álcool: sou um ferrenho abstêmio.
Talvez a culpa seja minha. Este estado decrépito do pai, da sua transformação em quase um indigente; um maltrapilho que vaga pelas ruas, invariavelmente bêbado, sorumbático, infeliz. Talvez a culpa seja minha. Eu poderia lhe dar banhos diários. Talvez a culpa seja minha. Eu poderia pentear seus cabelos, limpar-lhe os ouvidos com hastes de algodão. Talvez a culpa seja minha. Eu poderia mandar-lhe escovar os dentes após as refeições. Talvez a culpa seja minha. Eu poderia ler histórias antes de ele dormir: histórias bonitas, de personagens que superam o turbilhão da vida, de heróis, de cavaleiros, de princesas, de reis e rainhas. Talvez a culpa seja minha. Eu poderia dar-lhe o cálice vazio de vinho. Eu poderia entregar-lhe a hóstia consagrada da abstinência, num ato sagrado distante da igreja. Assim como a mãe, já morta, eu também carrego no lombo a vastidão da culpa católica. Penso em tudo isso quando o pai estica o rosto sobre o muro da minha casa para me pedir algum dinheiro. Estou trabalhando, escrevendo este texto. No sofá, minha filha, M., de nove anos, assiste a uma série sobre monstros — figuras de um mundo paralelo que aterrorizam uma pequena cidade, sob a vigilância atenta de uma turma de crianças. Talvez seja inadequada para sua idade. Mas, ao olhar para o muro, penso apenas que a vida é uma terrível ironia. Mais tarde, vou mandá-la tomar banho; depois, vou enxugar seus cabelos compridos e lisos; vou preparar o jantar e cortar frutas de sobremesa; vou mandá-la escovar bem os dentes; antes de dormir, lerei a história de um cachorro que faz de tudo para conquistar a amizade de uma mulher, cuja fama de ranzinza se desfaz com a chegada do animal.
Dois dias depois das frustradas tentativas na garagem, meu sobrinho levou o avô, meu pai, à agência bancária. Lá, socorridos por uma moça atenciosa, conseguiram fazer a biometria do rosto. A atendente garantiu que a aposentadoria continuará sendo depositada todos os meses, até o dia em que não seja mais possível provar que aquele corpo, espécie de zumbi inofensivo, continua a zanzar pelas ruas sob o olhar indiferente do sol.
O pai está vivo. Mas isso talvez já não faça a menor diferença.