Nunca acreditei em Papai Noel. Aquele foi um Natal estranho. O começo de algo que mudaria minha vida para sempre. Olho para trás — nesse eterno e torto retrovisor embaçado das memórias — e vejo um jovem ressabiado, um tanto constrangido a esgueirar-se entre as pessoas daquela imensa e ruidosa família, que, à sua maneira, o adotara. Era uma espécie de intruso, um homem em busca de uma existência que o afastasse da miséria, da violência paterna e de uma maldição que o acompanhava desde sempre. Meu avô não servia para Papai Noel. Era magro e desajeitado, segundo relatos ínfimos que permaneceram nas ranhuras das histórias familiares. Morreu jovem, bêbado, caído na rua. Encontraram-no estendido no pó, o corpo esguio afogado ao relento do sol. Lembro-me de quase nada dele. Apenas que tive um avô alcoólatra. De meu bisavô, nada sei. Nossa linhagem doentia vem de uma ancestralidade desconhecida. A figura do meu pai — dizem que era muito parecido com meu avô — é a única certeza de que estaremos sempre condenados.
Foi uma noite inesquecível. Dias antes, num gesto amoroso, de proteção, ela me disse com a voz entremeada de receio, mas firme: “Ou você para de beber ou será impossível continuar”. Eu já era o espelho do meu pai: um bruto, violento, quando inundava as entranhas de álcool. Transformava-me no animal que sempre me apavorara. A maldição começava a envolver-me num abraço grotesco. Mas o início daquele namoro trazia alguma esperança de futuro, algo que parecia sólido, que não se desmancharia à primeira desavença ou mal-entendido. Sentia-me acolhido. Eu tinha de escolher. Bebia muito havia mais de uma década.
Tornei-me um bêbado por volta dos 15 anos, quando o corpo já absorvia com voracidade o álcool barato comprado nos botecos onde o pai era freguês contumaz. Meu pai sempre foi meu maior exemplo. Naquele tempo, a vida era um inferno: o pai bebia, chegava em casa e despejava toda a brutalidade sobre sua família de mentira: a mulher e nós, os três filhos. Às vezes, batia na mãe. A mãe chorava baixinho, amuada, como se tivesse vergonha de ser a vítima. Só vi a mãe urrar de desespero quando a filha, minha irmã caçula, morreu de repente na juventude. Mas aí o corpo já estava calejado de socos, pontapés e ofensas. O urro pela morte da filha parecia carregar também toda uma vida marcada pela própria desgraça. Eu e meu irmão lutávamos contra a fúria paterna, mas ele era uma besta indomável. Minha irmã — ainda uma menininha magrela e assustada — apenas olhava aquelas batalhas monstruosas: um homem bêbado e dois meninos lutando contra todos os demônios que habitavam nossa casa. Às vezes, ela também apanhava do pai. Nosso alívio era quando ele desabava antes de chegar em casa. Muitas vezes, o resgatávamos caído na rua. O corpo sucumbia ao excesso de cachaça. Eu e meu irmão o arrastávamos para casa. Não tínhamos vergonha: a nossa maldição era pública.
Meu avô era alcoólatra; seu filho, meu pai, é alcoólatra; o filho do meu pai — eu — sou alcoólatra; meu irmão, filho do meu pai, neto do meu avô, é alcoólatra. Meu filho, neto do meu pai, bisneto do meu avô, nunca bebeu. Nessa triste ciranda, tento quebrar a roda que sempre nos leva de volta ao inferno.
A decisão estava tomada: nunca mais beberia álcool. Já alcançara a curva descendente dos vexames, das brigas, de me tornar um idiota diante do mundo. Todo alcoólatra é um doente. Alguns conseguem ser ainda piores. Esse era o meu caso. Guiado pela mão da namorada, entrei no luxuoso salão de festas. Talvez ela não acreditasse. Nunca perguntei. Aos poucos, o burburinho de vozes preencheu o vazio entre mesas e cadeiras. A comida — farta e saborosa — disputava espaço com muitos tipos de bebidas. Embora daltônico, sempre me senti seduzido pela cor das bebidas. Era inevitável beber. Com exceção das crianças, todos bebiam — uns mais; outros menos. Mantive a calma e pronunciei vários nãos às muitas ofertas de bebidas. O copo reluzia feito ouro na noite agônica. O barulho do líquido escorrendo da garrafa para o copo; o borbulhar da bebida entre a língua e o palato; a deliciosa sensação de torpor. Causou estranheza a minha abstinência natalina — a espera pela chegada do Papai Noel era uma das tantas desculpas para embebedar-me. Eu precisava atravessar a arrebentação. A calmaria, num mar bravio, era uma boia distante à minha espera. O movimento de garrafas e copos projetava uma Afrodite a acariciar meus lábios. Voltar ao inferno era a opção mais sedutora.
Na infância, a casa de madeira e frestas indecentes entre as tábuas tinha um fogão a lenha a um canto. O cano de metal, que cuspia a fumaça matinal, era fino e inapropriado para o deslizar do corpanzil e do saco vermelho recheado de presentes. O telhado tampouco aguentaria o peso do trenó. Não esperava encontrar o Papai Noel entalado a se sapecar na chapa quente onde repousavam a chaleira para o chimarrão e as panelas do almoço. Ao redor daquelas labaredas, vi muitas vezes os olhos do pai em chamas, um homem calcinado pelo álcool a socar, talvez, todas as frustrações que carregava. Depois que comecei a beber em excesso, entendi em que nos transformávamos: meu avô, meu pai, meu irmão e eu. Entendi que, quando olhava no espelho, via meu pai. Aquele homem que eu temia e odiava. Entendi que a maldita ciranda me enrodilhava numa espiral de álcool e violência. E não conseguia me livrar da imagem sombria que carregava. Não há fotos do meu pai jovem. Não há fotos do meu avô. Não são necessárias: eu os representava em carne e osso. Na geografia da pele, pareço-me com minha mãe; mas arrasto nas vísceras o fantasma do meu pai. Agora, neste Natal, completo vinte e seis anos de abstinência.
Naquele Natal, decidi matar o pai. Tenho um filho e duas filhas. Nenhum deles nunca me viu bêbado e violento. Às vezes, é possível trancafiar o demônio.