O mar

Um pai revisita o mar da infância e confronta ausências, enquanto a filha descobre nas ondas a alegria de amar a vida e o mundo
Ilustração: Carolina Vigna
01/03/2026

Sinto o golpe no rosto — uma solapada, um tapa suave, mas intenso. Agarro com as duas mãos o corpo magro e o elevo para além do limite do topo das ondas. O sol sanguíneo, espetado no azul do céu, assiste ao nosso desajeitado balé. Minha filha sorri a cada encontro, esbarrão, desequilíbrio: ela me conduz na improvisada dança, na alegria de apenas estarmos juntos na imensidão do mar. Eu amo a minha vida: a frase da pequena M., um tanto sufocada pelo marulho da água, não me espanta, mas me comove. A vida ainda é, quase sempre, apenas uma brincadeira cheia de possibilidades. Na areia, a balbúrdia do verão — com seus vendedores ambulantes, mulheres em busca de um insípido bronzeado, crianças lambuzadas de sorvete e homens a disfarçar o consumo excessivo de álcool — parece algo muito distante, alheio ao espetáculo que inventamos nesta brincadeira infantil de domar a instabilidade de ondas e mais ondas, num fluxo constante, eterno. Um dia, não estaremos mais aqui, e este mar e sua cadência continuarão a banhar o mundo.

Há uma única foto daquela viagem ao litoral. Na imagem meio desbotada — hoje, não tenho a menor ideia de onde esteja — aparece apenas o pai, com um calção escuro e uma camisa de manga curta, botões todos abertos, a mostrar um corpo ainda jovem — um homem magro, sem músculos salientes, mas de aspecto saudável. O movimento de uma das bandas da camisa dá a impressão de que ventava. O pai está sobre um pequeno barco de madeira, prende um cigarro entre os dedos. Ao fundo, o mar é uma linha reta e, aos meus olhos daltônicos, de cor indefinida. É possível que haja outras fotos daquela viagem, mas devem estar perdidas no sarcófago familiar. Haverá uma foto com todos nós cinco — o pai, a mãe e os três filhos — sorrindo diante do mar bravio? Mas isso não me incomoda; o que realmente me causa desconforto é não lembrar de absolutamente nada da ida à praia pela manhã e do regresso no início da noite — afinal, não tínhamos dinheiro para pagar um hotel, uma pousada, uma casa, nada. Tampouco meus pais tinham amigos naquele lugar cujo nome se apagou. A única certeza: fomos e voltamos de ônibus no mesmo dia. Talvez a lembrança de uns pedaços de frango gordurosos seja desta viagem. Mas isso pode ser apenas um simulacro para amainar a escuridão. Em toda viagem à roça, à casa dos avós maternos, a mãe levava, em pacotes plásticos, pedaços de frango frito. Aquilo, ao contrário do que ela imaginava, sempre me causou ânsia e certo nojo.

E pensar que depois de toda esta água há outro mundo, outras pessoas, milhares delas, conversando em outras línguas, vivendo outras vidas. A frase banal e óbvia — apenas uma tentativa de iniciar uma conversa, enquanto organizávamos os guarda-sóis e as cadeiras na areia — arrastou-se comigo para a água. Deixo aquelas pessoas ali, num alarido familiar e afetuoso — como nos enredamos em certas relações sociais e amorosas? O que tanto define nossas escolhas? —, e envolvo a pequena mão de M. em direção às ondas. Explico o que podemos fazer, como fazer, até onde ir, quando recuar, quando pular, quando fechar a boca: finjo, feito um eloquente títere, uma sabedoria inexistente. Nunca dominei nada sobre o mar; minha vocação para Capitão Ahab é um riso sardônico à caça de um lambari. Na juventude, quando acompanhava os amigos surfistas à praia, aquilo me parecia uma imensidão sedutora, mas cujos mistérios me impeliam a ficar na areia, sentado, sozinho, enquanto eles se equilibravam sobre as pranchas. M. me olha atenta, mergulha e surge depois da onda. Fica feliz por ter conseguido furar a parede de água. O orgulho brilha nos riscos que escorrem pelo rosto magro. Pai, eu amo o mar? A frase é sufocada — mas persiste em meus ouvidos — pelo barulho do helicóptero que sobrevoa o oceano: uma mulher está sendo arrastada para o infinito. Os salva-vidas a retiram da água; o namorado, ao lado, está apavorado. A mulher caminha com dificuldade pelo raso da praia. Tem no rosto a expressão de quem sabe que o fundo do mar é menos divertido do que nos desenhos animados. M. segue agarrada em mim. Talvez desconfie de que toda beleza pode esconder uma armadilha.

Na idade de M., eu não amava o mar. Impossível amar algo que se conhecia apenas pela tevê em preto e branco, de míseras 22 polegadas, em notícias sobre verões que não nos pertenciam. Só lembro do mar da adolescência — um lugar de ridículas bebedeiras, cercado de possibilidades de alguma relação sexual. Quando o pai segura o cigarro sobre o barco, possivelmente eu tivesse mais ou menos a idade atual de M. E isso me causa certa frustração: o que fizemos naquele dia? Não lembro de ter pulado ondas, agarrado àquele homem, cuja vida já dava sinais de que jamais mereceria qualquer afeto dos filhos: não se pode querer o que nunca se dispôs a oferecer. Ou pulamos muitas ondas, felizes? Eu e meus irmãos? Eu e minha mãe? Todos nós cinco, embevecidos pela aventura? Não, a mãe seria incapaz de salpicar as canelas finas e varicosas. A mãe era imune a pequenas felicidades. As grandes felicidades, então, jamais a envolveram numa vida de misérias e pequenezes cotidianas. O mar, talvez, só faça sentido para quem prescinde dele para ser feliz.

Aos poucos, o corpo perde a vitalidade; a intensidade das ondas — o mar rugia feroz no fim da manhã — afrouxa o ímpeto de encarar mais uma sucessão de ondas. M. tenta contrariar a natureza do corpo, mas a lassidão dos músculos a encoraja a abandonar a água. Na areia, vemos o movimento: é hora do almoço — um almoço tardio, sem ansiedade, na vagareza das férias insípidas, mas agradáveis. Recolhem-se os guarda-sóis, as cadeiras. Das toalhas, sacudidas com delicadeza, desprendem-se grãos finos de areia. Os chinelos soterrados surgem como proteção ao asfalto em labaredas logo adiante. M. está feliz pela aventura dos muitos saltos, caldos, arrastões, mergulhos. Enganchada à minha mão direita, caminhamos em direção à rua. Não há pressa. Na metade do caminho, ela para e vira-se uma última vez em direção às ondas. O que há do outro lado daquela linha no horizonte? Aqui ao meu lado há uma menina que ama o mar.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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