O amor

Carta infantil reacende memórias de um amor não vivido e expõe, com ironia e ternura, as marcas duradouras do sentimento ao longo da vida
Ilustração: Carolina Vigna
01/04/2026

Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
[…]
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são ridículas.
Álvaro de Campos

O calor opressivo nos derretia naquele fim de tarde. Ela surgiu ao fundo do corredor: o corpo magro, a franja a escorrer na testa, a mochila grudada às costas. Caminhou com a calculada malemolência da infância; o movimento das pernas desprezava o mundo ao redor. No portão, a algaravia frenética de pais e mães — seres barulhentos por natureza —, orgulhosos daquilo que colocaram no mundo, sem exibir a mínima preocupação de que algo dê errado em poucos anos. A certeza de um futuro brilhante (seja lá o que isso signifique) galopa nos olhos da manada, à qual me incluo, enfurecida a catar crianças pelas mãos, braços, corpo todo. M. aproxima-se e me entrega o envelope. Ganhei de um menino, diz com a naturalidade de uma anciã. Mas o chocolate é meu, vou comer agora. O solilóquio, sem resquício de ensaio em sala de aula, não me causa espanto. Já estou acostumado às galhofas de M. Posso ler?, pergunto. Claro, pai, é uma carta de amor.

Eu amava S. Quando chegava à escola — uma casa de madeira cujas paredes balançavam com a ventania —, nas manhãs tingidas de neblina, ela já estava na escadaria da entrada, rodeada de amigas. O alarido fino das vozes em formação enchia o pátio de uma estrondosa alegria. S. era uma menina popular num tempo em que isso tinha pouca importância. Bonita e falante, mexia nos cabelos loiros, longos sobre os ombros, com elegância e delicadeza. Talvez por isso meus olhos não desgrudassem de seus movimentos: nunca uma delicadeza me desnorteou tanto. Pelo menos não até aquele momento, quando eu já beirava os nove anos de idade. Eu amava S. com todas as minhas forças. Mas nunca lhe escrevi uma ridícula carta de amor.

Não conheço H., mas o admiro. Tomado de coragem diante do ridículo — afinal, sabemos: todas as cartas de amor são ridículas —, aventurou-se como um cavaleiro errante a caçar dragões por mundos inóspitos. Coragem e amor o moveram. Imagino-o na solidão do quarto, a luz tênue do abajur como companhia, a folha em branco diante dos olhos impúberes e, talvez, em pânico, a mão trêmula a segurar o lápis — sim, as ridículas cartas de amor ficam mais charmosas quando escritas a lápis. No peito, o coração a saltitar tal um grilo feliz e ansioso. Ele não apenas escreve, mas desenha cada letra para dar significado ao sentimento: o imenso amor que sente por M. O início me comove: nunca imaginei que alguém me faria tão feliz. O que minha pequena M. aprontou para fazê-lo tão feliz? Mexeu nos cabelos com graça e delicadeza? Ofereceu-lhe parte do lanche numa tarde modorrenta? Acariciou-lhe a mão após uma queda no recreio? São tantas as possibilidades de felicidade eterna aos nove anos.

Nunca me arrisquei a declarar meu amor por S. A vergonha, o chinelo de dedos, o cabelo arrepiado, as roupas puídas me transformavam em um risível e estropiado pretendente. Queria ser Romeu; não passava de um ridículo Chaves. Talvez tivesse belas palavras a lhe entregar. Afinal, minha letra era bonita, corria perfeita entre as linhas do caderno de caligrafia. Caprichava demais na escrita, mesmo sem saber exatamente para que isso me serviria. Minha mãe e meu pai, por exemplo, pouco sabiam ler e escrever, eram adultos e tinham três filhos. Mas talvez eu acreditasse que ter a letra bonita nos livrasse de perpetuar o mal. De tempos em tempos, o pai batia em nossa mãe — dava socos e pontapés — e dizia que nos mataria a todos. Mas talvez isso não tivesse muito a ver com caligrafia.

Noto que H. tem ótima referência espacial. A folha branca não tem linhas. Ele conduz as palavras com a arte de um experiente agrimensor. Com exceção da falta de uma vírgula e de uma crase, o texto está impecável, construído com letra grande, bojuda, arredondada e elegante. H. é um sujeito de excelente gosto estético. Admiro sua capacidade de encadear letras que, aos poucos, compõem o complexo (e ridículo) mundo do amor. Cavaleiro destemido por terras desconhecidas, segue firme rumo à conquista de M. e escreve: você é especial, me completa e dá sentido à minha vida. Confesso que este trecho me emociona. Impossível não se solidarizar com essa busca incessante — que dura a nossa breve eternidade — pelo sentido da vida. Minha pequena M., pelas palavras que saltam do papel, tem um lugar especial no universo.

Encontrei S. uma única vez na vida adulta. Transformara-se em uma mulher magra, fumante e de cabelo bem curto. Nunca soube do meu amor e, hoje, nem desconfia da minha existência. Sei que ainda mora em C., no mesmo bairro onde ficava a escola de madeira. Talvez eu devesse ter escrito uma carta. Mas agora o amor toma outros rumos. E talvez, em breve, escreva uma ridícula carta de amor. Afinal, não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.

H. mostra-se, além de artífice da conquista amorosa, um menino educado e sensível. Para finalizar sua linda (e ridícula) carta de amor, escreve: obrigado por me transformar em uma pessoa melhor em todos os sentidos! Além da força da emoção que perpassa cada letra, chama-me a atenção o ponto de exclamação — como um grito a ecoar em um desfiladeiro longínquo, está lá para assegurar que será ouvido, que sua iniciativa encontrará o aconchego da compreensão. É como se dissesse: sim, M., você é tudo na minha vida, guia meus dias, ameniza minhas angústias, reduz minha escuridão, destrói minhas incertezas. E, para comprovar a seriedade de sua carta, envia junto um bombom cuja embalagem um casal baila, supostamente uma valsa.

Antes de devolver a carta a M., noto que, ao final do texto, há um desenho. É uma menina de franja escorrida na testa, duas tranças laterais, olhos grandes e arredondados. H. é também um ótimo desenhista. Deixou marcada no papel não só o amor por M., mas também a forma como a vê, como a imagina em seus sonhos infantis. Também passei parte da infância desenhando, mas nunca me preocupei em eternizar S. Tenho dúvidas se foi o grande amor da minha vida. Não escrevi uma ridícula carta de amor, não a desenhei, não lhe entreguei um mísero bombom. Meu amor por S. sempre foi incompleto, um arremedo de paixão pueril, mas inesquecível.

O sol já arrefeceu sua fúria. Dobro a carta e a coloco novamente no envelope. M. caminha ao meu lado, com a boca e os dedos lambuzados de chocolate. O amor, além de ridículo, deixa marcas em tardes de calor opressivo.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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