A corrida

Correr atravessa infância, futebol de domingo e vida adulta: gesto simples que mistura fuga, memória, ironia e a persistência de seguir
Ilustração: Carolina Vigna
01/01/2026

Correr nos salva de algo que nossos pés ignoram. O medo impulsiona os músculos, que se contraem e se alongam, num mecanismo perfeito de salvação. A horda enfurecida era diminuta — homens, alguns bêbados, no encalço de dois meninos magricelos e, naquele momento, apavorados. Se não corrêssemos, estaríamos perdidos. Socos e pontapés encontrariam nossos ossos ainda em formação. Sempre gostei de correr. Na escola pública e de futuro incerto, quando o professor de educação física — um sujeito meio arrogante, cujo corpo saudável e musculoso apenas ressaltava a nossa insignificância — gritava “já”, meu corpo de varapau tentava superar-se. Tinha de chegar antes dos demais ao muro chapiscado, sujo e feio. Sob meus pés, no piso irregular de cimento áspero, uma infância febril. Os braços tentavam, em desespero, agarrar-se ao ar — um falso Tarzan a fugir de jacarés num riacho —; as pernas finas trotavam na ânsia de vencer. Mastigava cada passada com a fome dos desesperados. Transpirava na camiseta cujo tecido, com o símbolo escolar já desbotado havia tempo, denunciava os anos de uso. O barulho seco e oco dos pés na pista comprovava o improviso do tênis inadequado — sempre fui um corredor mambembe, numa maratona falsificada, de míseros metros. A derrota me esperava no muro adiante. Eu corria de casa à escola; da escola à casa. Como bom ladrão de frutas, corri muitas vezes do velho dono dos parreirais e dos laranjais. A maldade infantil tripudiava daquele senhor esbaforido, com um ancinho nas mãos, a lamentar as frutas perdidas. Era triste aquela figura deixada para trás.

Mas agora, na tarde de domingo — o sol a pino a sapecar o mundo —, corríamos em desespero. Não lembro o que exatamente enfureceu a manada que nos perseguia. Talvez o gol feito pelo forasteiro — este menino habilidoso que corre apavorado aqui ao meu lado — tenha desencadeado a ira da torcida. Não somente o gol, algo banal naquele campo de terra, mas o olhar de desprezo. Como ousa nos encarar dessa forma? A ironia de um sabedor, de um jogador muito melhor que todo o restante, era inaceitável naquelas bandas, cujos homens eram bêbados, brutais e ignorantes. As tardes de domingo eram dedicadas ao futebol no campinho de chão batido — a poeira criava um cenário melancólico e soterrava qualquer possibilidade de glamour. Era um futebol de gente pobre e bruta. Boa parte da ralé na torcida; os demais, em campo, incluindo eu. Naquele dia, eu e meu amigo (até hoje não sei muito bem por quê) estávamos no time adversário. E vencemos. E ele fez aquele maldito gol. E o olhar. Ah, a insuportável expressão de pilhéria em direção ao barranco — um arremedo bisonho de arquibancada —, infestado de ratos e hienas sanguinárias. De repente, como uma avalanche napoleônica, guiada por um general manco e cego, estávamos cercados, rodeados de braços e punhos prontos para nos esmagar, triturar toda a nossa soberba. Só nos restava correr. A casa, um frágil refúgio, ainda estava distante.

Algum tempo depois, no estropiado vestiário — uma casinha de madeira nos fundos de uma das traves —, o corpo de N. (uma mulher negra e gorda) seria encontrado, estraçalhado pela fúria do assassino, cujo rigor desconhecia limites: mais de trinta facadas transformaram o corpo de N. numa massa disforme e, ainda mais, solitária. O falatório das beatas anunciava pelo bairro “aquela era puta”, como se a alcunha, criada pela hóstia pregada no céu de bocas banguelas, fosse mais que suficiente para justificar a morte trágica.

Desde a infância, convivo com mortes violentas. G. foi trucidado a facadas. N. também. Meu primo foi morto com vários tiros. Um amigo se suicidou na adolescência, impelido por uma paixão doentia. Outros amigos foram engolidos pelo tráfico. Agora, na semana passada, meu sobrinho me contou que E., um sujeito que vivia drogado ao nosso redor, foi assassinado pelo traficante. Algumas mortes me chegam a galope num cansado pangaré. Jamais consegui me livrar de nenhuma delas.

Entre os perseguidores está meu tio, aquele tipo de tio postiço: casado com uma das irmãs de minha mãe. Sempre pareceu um sujeito tranquilo — analfabeto, como muitos da minha família, meio calado e grande jogador de baralho e sinuca. No entanto, nas hostes do canhestro exército napoleônico, parecia ensandecido. Os olhos muito azuis carregavam brasas; a boca expelia palavrões em nossa direção: minha mãe levada ao prostíbulo — aquela mulher triste, nem feia, nem bonita, de seios pequenos e boca murcha —; uma pedra nas mãos, pronta para nos atingir nas costas. Por que não a atirou? Talvez, em algum lugar do cérebro bestial, algo lhe dissesse: “são apenas dois meninos correndo, apavorados”. Ou talvez fosse apenas um grande filho da puta de um covarde.

Neste Natal, comprei um tênis novo de corrida. É bonito, apesar de meu filho olhar com desdém para os detalhes em verde. Meu daltonismo não dá a mínima para detalhes. É um tênis moderno, um tanto caro, que promete impulsionar os corredores rumo à vitória. Mas qual seria a vitória de um corredor solitário como eu? Corro há muitos anos, entre idas e vindas. Nunca participei de nenhuma prova — essas repletas de gente feliz, esbanjando animação e vitalidade. Apenas corro, sozinho, sem ninguém ao lado para compartilhar a minha vitória ou derrota — ao final, seremos todos derrotados. Corro na rua e na esteira. Não tenho objetivos transcendentes ao correr, nem penso em coisas grandiosas, nem faço projetos mirabolantes — se quiser fazer Deus gargalhar, conte-lhe seus planos. Apenas corro. Movimento as pernas, os braços, acerto a respiração e corro. O corpo transpira e, aos poucos, uma sensação de leveza envolve todo o corpo. Dizem que é uma sensação similar à produzida por algumas drogas. Prefiro correr. Talvez mude de ideia. No fim da vida, nada mais fará muita diferença. Um dia, o corpo cansado, destruído pelo tempo, olharei para trás, para um corredor imaginário que deixei pelo caminho, e direi: “chega, não vou mais correr”. De quem será a vitória?

Chegamos inteiros em casa. O pavor torna possível qualquer linha de chegada. Minha mãe nos acolheu. Os lábios sem nenhum resquício de batom; os seios devidamente protegidos de olhares indiscretos. Um pouco assustada com nosso desespero, queria uma explicação. Contamos, sem muitas minúcias, o gol, o início da confusão, a fuga, a perseguição. Ela, aparentemente, não deu muita importância. Em segurança, percebi que, na desabalada corrida, havia perdido um pé do tênis — na verdade, um fedorento kichute —, e meu dedão direito sangrava. Não havia detalhes em verde, nem sola especial para impulsionar a passada. Apenas meu daltonismo, naquele momento, tinha certeza de que todo sangue é vermelho.

Rogério Pereira

Nasceu em Galvão (SC), em 1973. Em 2000, fundou o jornal de literatura Rascunho. É criador e coordenador do projeto Paiol Literário. De janeiro de 2011 a abril de 2019, foi diretor da Biblioteca Pública do Paraná. Tem contos publicados no Brasil, na Alemanha, na França e na Finlândia. É autor dos romances Antes do silêncio (2023) e Na escuridão, amanhã (2013, 2ª edição em 2023) — finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) e traduzido na Colômbia (Babel Libros) — e da coletânea de narrativas breves Toda cicatriz desaparece (2022), organizada por Luiz Ruffato.

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