Zabumba, de Haydée Nicolussi

No poema de Haydée Nicolussi, as lembranças da infância se transformam em protesto contra a opressão e as desigualdades sociais
Haydée Nicolussi, autora do poema “Zabumba”
01/11/2026

Zé Pereira! Ai! Zé Pereira!
Que é feito de minha infância,
Zé Pereira?
Você carregou minha inocência no seu bombo,
lá pro Congo,
Ai! Zé Pereira!
Que saudade
de minha meninice…

Hoje tem espetáculo?
Tem sim sinhô!
Tem de noite e de dia?
Tem sim sinhô!
O palhaço e a mulhé?
Tem sim sinhô!
Sururu na freguesia?
Tem sim sinhô!

Chorei… chorei porque meu amô
disse que ia me abandoná…

Tombei… tombei e mandei tombá
o menino vadio de perna pro á!

Ai! Zé Pereira! Zé Pereira!

A vida ficou tão triste…
As cousas estão tão longe…

Nunca mais a idade de ouro dos idílios…
Nunca mais sonhos de amores sossegados…
— os noivos ricos envenenaram o mundo….
— os noivos pobres estão desempregados…

Nunca mais contos de fadas da avozinha
quando a infância em roda do braseiro!
— menino rico sai da escola pra polícia…
— menino pobre é escoteiro…

Zé Pereira! Ai! Zé Pereira!
Vem fazê um zabumba aqui pras crianças grandes
que estão tão tristes, tão sozinhas!
condenadas a morrer na guerra…
Vem fazê um zabumba decisivo, de verdade,
com todos os gritos da mocidade traída
nos seus direitos,
com todas as críticas às autoridades falsificadas,
zabumba de dor e de lágrimas transfiguradas
na noite acesa de tochas e de cânticos vermelhos!

Hoje tem revolução?
Tem camarada!
Contra a guerra imperialista?
Tem camarada!
Contra a fome e a opressão?
Tem camarada!
Contra a gana dos palhaços?
Tem camarada!
Contra o horror da escravidão?
Tem camarada!

Chorei… chorei porque meu amô
disse que ia me abandoná…

Tombei… tombei e mandei tombá
o burguês criminoso no fundo do má!
[1934]

Raríssimos leitores e mesmo estudiosos da poesia brasileira devem conhecer a obra da capixaba Haydée Nicolussi (1905-1970). O poema Zabumba veio a lume originalmente em 20 de janeiro de 1934, na revista Vida Capichaba e depois, em 1943, no único livro publicado da autora, Festa na sombra — reeditado em seu centenário, em 2005, pela Secretaria de Estado da Cultura do Espírito Santo. O poema incorpora tanto o espírito de inovação estética da primeira geração modernista (e os versos ecoam a conhecida coloquialidade malemolente de Manuel Bandeira) quanto a guinada ideológica que temperou a segunda geração (e a denúncia das desigualdades ecoa o tom de romances de Graciliano Ramos e de Parque industrial, de Pagu, de 1933).

Graciliano Ramos, aliás, em suas Memórias do cárcere, recorda um episódio em que aparece Haydée, que o alagoano descreve como “mulher de fala dura e enérgica” em “conversa loquaz” com Nise da Silveira. Estavam todos na Casa de Detenção em abril de 1936. Sim, Haydée Nicolussi ficou presa entre dezembro de 1935 e o início de maio de 1936, em um período de caça (sob ordens de Getúlio Vargas) aos envolvidos na Intentona Comunista. O Prontuário da escritora registra: “Presa, como medida preventiva de ordem e segurança pública, em face de seus antecedentes políticos e por manter ligações com elementos filiados ao Partido Comunista, em São Paulo. Na busca procedida em sua residência, foram apreendidos livros e jornais de propaganda comunista”. (Sobre a autora, é fundamental a leitura dos estudos Ainda resta uma esperança: Haydée Nicolussi — vida e obra, de 2007, e Poeta, revolucionária e romântica, de 2005, de Francisco Aurelio Ribeiro; assim como do ensaio O discurso paratópico de Haydée Nicolussi: literatura e política, de Júlia Almeida, de 2020.)

O aspecto visual do poema já encena seu teor rebelde, carnavalizado, anárquico, transitando entre estruturas regulares e irregulares. De um lado, o poema vai de monóstico a estrofe com dez versos; os versos variam imensamente no número de sílabas; de outro lado, há quadras, dísticos, refrões e anáforas que organizam a “festa”, além das rimas (sobretudo consoantes) que harmonizam o aparente caos visual, estrófico e métrico. No entrecruzar dos tempos, o poema mistura alegres memórias da infância à melancolia do momento presente, enquanto projeta uma revolução futura. Se as forças policiais getulistas conhecessem o poema “Zabumba”, decerto o usariam como “prova” contra a perigosa, subversiva, comunista, “poeta, revolucionária e romântica” escritora capixaba.

Ao longo das doze estrofes, desfilam lembranças, lamentos e protestos. Desde o título, sendo zabumba um instrumento de origem afro-indígena (daí a alusão ao Congo, no verso 5) que, com seu som grave e abafado, marca o ritmo com intensidade e nitidez, o poema explora [a] os espaços da página, com os versos se iniciando em quatro “lugares” distintos, como blocos em movimento, e [b] radicaliza no uso dos sinais de pontuação, com a ocorrência de 24 exclamações (!), 11 interrogações (?) e 16 reticências (…), para encenar e reforçar o aspecto carnavalesco que atravessa o poema.

A figura de Zé Pereira (oriunda de Portugal, e, no Brasil, com desdobramentos particulares) se consagrou como metáfora da alegria do carnaval popular de rua. No poema de Haydée, Zé Pereira se transforma numa espécie de interlocutor, ao qual a poeta se dirige e clama para que retorne e traga em seu bombo “a infância em roda do braseiro”, a inocência, a meninice, “a idade de ouro dos idílios”, os “sonhos de amores sossegados”, os “contos de fadas da avozinha”. Tendo no horizonte a infância de uma criança brasileira numa cidade do interior (Alfredo Chaves, ES, p. ex.) no início do século 20, o poema lamenta não só que o tempo passou, mas piorou, pois “a vida ficou tão triste”, também as “crianças grandes/ estão tão tristes, tão sozinhas!/ condenadas a morrer na guerra”. Se o Zé Pereira retorna e, com ele, a alegria criadora e a potência da vida, as “autoridades falsificadas”, os “noivos ricos”, o “menino rico” enfrentarão “os gritos da mocidade traída [e] a noite acesa de tochas e de cânticos vermelhos!”.

Nesse momento, o poema reverbera um espírito entreguerras, em que o projeto, o sentimento, a esperança, o ideário, a utopia de uma revolução saltam aos olhos: o lúdico da infância (“Hoje tem espetáculo?/ Tem sim sinhô!/ Tem de noite e de dia?/ Tem sim sinhô!/ O palhaço e a mulhé?/ Tem sim sinhô!”) dá lugar a uma consciente posição do indivíduo na história coletiva:

Hoje tem revolução?
Tem camarada!
Contra a guerra imperialista?
Tem camarada!
Contra a fome e a opressão?
Tem camarada!
Contra a gana dos palhaços?
Tem camarada!
Contra o horror da escravidão?
Tem camarada!

Poucos poetas do período se manifestaram com tanta firmeza, concretude, lucidez e sensibilidade. O subserviente “sim sinhô” na estrofe 2 dá lugar, na estrofe 10, a um solidário “camarada”, termo em que se consubstancia a militância política da poeta nos anos 1930. O dístico final — estrofe 12 — também opera uma transformação radical, alterando a estrofe 4 (“Tombei… tombei e mandei tombá/ o menino vadio de perna pro á!”) para:

Tombei… tombei e mandei tombá
o burguês criminoso no fundo do má!

O inocente tombo do “menino vadio” da infância agora, no desfecho de “Zabumba”, feito um derradeiro batuque da baqueta, se transmuta em um tombo com a força de uma luta de classes, em que o inimigo — o “burguês criminoso” — é lançado a um lugar de ostracismo, de prisão, desaparecimento. Esse burguês é o rico, o patrão, o opressor, o Estado autoritário, um “purée de batatas morais”, que Mário — com quem Haydée trocou cartas — decantou em Ode ao burguês em 1922. Além do autor de Macunaíma, Haydée travou contatos com Rubem Braga, Albert Camus, Paulo Rónai, Roger Bastide, Henriqueta Lisboa, traduziu Nikolai Bukharin, criticou Oswald de Andrade em resenha e manifestou seu gosto pela escrita de Murilo Mendes. A autora de Festa na sombra permaneceu, e permanece, contudo, à sombra da festa literária brasileira, como parece sugerir o título de sua única obra publicada em vida.

Se ainda hoje a voz da mulher — e da mulher poeta e do interior, solteira, pobre e com posição política dissonante do Poder — encontra inúmeros obstáculos para se fazer ouvida e lida, no tempo de Haydée Nicolussi o contexto era imensamente desfavorável. Como dirá com precisão Júlia Almeida, “É esse ethos de ‘desambientada’ que vai se encarnar na escrita de Haydée após a prisão, vigiada pela polícia política, na condição difícil de ser mulher, feminista, comunista, escritora, sem emprego, sem casa, em uma sociedade cada vez mais repressora e violenta, cujos ideais de igualdade são colocados na ilegalidade e na clandestinidade”.

Em 1934, ano do poema, tanto Getúlio Vargas quanto Adolf Hitler são “eleitos” no Brasil e na Alemanha. Há como que uma poeira que vem do passado e não se assentou — há indícios de que algo está fora da ordem, e o Estado Novo de 1937 e a Segunda Guerra Mundial de 1939 dão forma à catástrofe. No poema, a saudade de um tempo idílico (inocência, palhaço, meninice) conflita com a tristeza de uma vida presente pautada pela diferença de classes (ricos x pobres): desse conflito, resulta uma posição esclarecida em favor de uma revolução, contra a “guerra imperialista, a fome e a opressão, o horror da escravidão”. Em 1938, para o Diário da Manhã, Haydée declarou: “Eu me interrogava a mim mesma: Para que e para quem fazer arte? Até onde o interesse humano tem o direito de caminhar; e o egoísmo, de reinar?”.

Haydée Nicolussi saiu do interior do Espírito Santo, viveu na capital Rio de Janeiro e conheceu Paris, testemunhando o Estado Novo e o Golpe Militar de 1964. Até sua morte, em 1970, à exceção de Cecília Meireles, praticamente nenhuma outra poeta conseguira relevo em nossa machista crítica e historiografia literária. O poema “Zabumba” foi publicado em 1934, de forma anônima, em um jornal regional (Vida Capichaba), em um concurso. Haydée teve originais que desapareceram com a polícia getulista. Há obras suas ainda inéditas. O sentimento de sombrio abandono — que faz com que a poeta evoque a figura festiva de Zé Pereira — se perpetua: outrora, agora. Haydée é Nicolussi e é todo camarada que toca essa zabumba.

 

(Em memória de Júlia Almeida, que deu o título de Samba na sombra a seu álbum de músicas em 2022, em homenagem a Haydée Nicolussi.)

 

Wilberth Salgueiro

Poeta, crítico literário, pesquisador do CNPq e professor de literatura brasileira na UFES. Autor de A primazia do poema, Lira à brasileira: erótica, poética e política, O jogo, Micha & outros sonetos, entre outros.

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