O namoro das páginas: literatura e história (2)

A história pretende-se uma ciência, com métodos próprios, que busca ler/entender o passado.
Mario Vargas Llosa, autor de “A guerra do fim do mundo”
01/12/2011

Rosenfeld (in: O teatro épico. São Paulo: Perspectiva, 1985) aponta as características principais dos três gêneros literários. A lírica é o texto em que uma voz central exprime estados interiores, disposições anímicas — não havendo, por isso, uma configuração mais visível de personagens; há nela a presença de ritmo, musicalidade; é acentuada a carga conotativa das palavras; e torna-se mais perceptível do que nos outros gêneros a tentativa de fusão sujeito (eu lírico) e objeto (referente). A épica, por sua vez, exige a presença de um narrador que descreve acontecimentos ou eventos; nesses acontecimentos, há a configuração de personagens; a linguagem é mais denotativa; e há — em relação à lírica — um maior distanciamento entre sujeito e objeto. Por fim, a dramática é a obra dialogada que traz personagens atuando por si, com ausência de narrador (este aparece apenas nas rubricas ou marcações textuais); é representada no palco por atores que se exprimem através da voz e gestos. São essas, portanto, em linhas gerais, as formas (ou “arquiformas”) que a literatura assumiu no tempo. Acrescente-se a elas a ficcionalidade como um outro elemento que ajuda a compreender o caráter do literário. Por sua vez, a história pretende-se uma ciência, com métodos próprios, que busca ler/entender o passado. Ela é uma narrativa desse passado, do real ocorrido, sendo que o documento é a fonte necessária a que o historiador recorre para construir a sua narrativa. Os documentos são de várias formas (textos escritos, relatos orais, histórias de vida, etc.) e sem eles não há história, não há reconstituição do passado. O discurso histórico, por outro lado, se reconstrói permanentemente para, assim, ampliar, confirmar ou até mesmo negar o passado. Do mesmo modo que a literatura, a história é uma representação do real — só que pretensamente científica e buscando sempre a sua verdade nos documentos. A verdade da história está nas fontes encontradas, sobre as quais o historiador elabora a sua narrativa. Ora, quando nos deparamos com um texto como A guerra do fim do mundo, do Prêmio Nobel Mario Vargas Llosa, em que o escritor, à maneira de um historiador, pesquisa um acontecimento numa vasta documentação e o produto da sua investigação ganha corpo no seu romance, é de se perguntar até que ponto a literatura, em certos casos, também não adota critérios muito próximos daqueles da história enquanto disciplina — critérios, por assim dizer, científicos — para se aproximar da verdade dos fatos. É certo que, em alguns casos, há uma metodologia muito parecida. O ficcionista, assim como o historiador, se apodera de informações significativas. No entanto, o produto da narrativa do ficcionista é diferente do produto da narrativa do historiador. Aquilo que há de imaginação imbricado num romance muda o sentido da narrativa que, como a do historiador, se quer fiel aos fatos. Isso porque o ficcionista, alterando situações, acrescentando personagens ou acontecimentos, dando atributos irreais a pessoas reais, termina por promover uma leitura diferente da do historiador. A leitura do historiador se pretende subordinada aos fatos; a do ficcionista transborda os fatos, forçando um outro tipo de percepção dos mesmos. A perspectiva do ficcionista é sempre a de ir além dos fatos, captando as possibilidades ou potencialidades deles. Isso não deixa de enriquecer a(s) leitura(s) do real. E é também a forma específica de a literatura representar o real.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.

Rinaldo de Fernandes

É escritor e professor de literatura da Universidade Federal da Paraíba. Autor de O perfume de Roberta, entre outros.

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